Crítica | The Sword & The Soaring


★★★★

“The life is too beautiful/I cry when I feel it”, canta Sage Elsesser no refrão de “Sunlight of the Spirit” acompanhado por um instrumental com a ausência total de baterias, enquanto um loop vocal feminino junto de uma flauta traz uma sensação de calmaria, o que auxilia o ouvinte a realmente absorver as letras. Em seu sexto álbum de estúdio, Sage Elsesser, ou Navy Blue, como você o queira chamar, traz o ouvinte em sua jornada de elucidação emocional oriunda de inúmeros eventos catastróficos na vida do rapper americano.

Mas, a forma como ele escolhe conduzir o álbum, olhando para as situações com muito mais esperança do que costumamos ver em álbuns que tocam em assuntos semelhantes, é talvez o maior diferencial deste projeto. Em qualquer momento do álbum que der play, linhas que compõem um olhar mais profundo à persona de Navy não trazem uma contemplação desnecessária ou piegas, mas soam realmente verdadeiras e com a clareza emocional que um ser completamente maduro poderia ter.

A forma como ele toca em assuntos como luto, traições e a perda de amores ao longo de sua trajetória não soa triste, soa livre. Ele encara esses temas trágicos de uma maneira completamente louvável, como quando fala sobre a morte trágica de seu irmão: não de forma catártica, mas como alguém que compreendeu que isso faz parte de sua trajetória e que, ainda assim, agradece pelo amor que sentiu.

É extremamente raro vermos um tipo de material que toca bastante sobre os obstáculos que temos na vida e a forma como olhamos para eles, seja por bênção, seja por maldição. Os instrumentais não soam dispersos ou aleatórios, eles seguem uma linha muito mais abstrata do hip hop, utilizando de flautas e trompetes mais cadenciados, acompanhando a forma como Navy cospe seus versos. O nova-iorquino transforma o que seria uma narrativa muito mais apressada em algo mais denso e complexo, chegando a conversar com o instrumental em alguns momentos pontuais do álbum, não se aproximando de um estado contemplativo demais nem existencial demais.

A complexidade deste álbum mora na forma como Navy o conduz. Além de ser uma jornada de elucidação de si mesmo, a cada faixa e a cada verso sentimos que caminhamos para frente, para mais conhecimento não só sobre o artista, mas sobre nós mesmos. The Sword & The Soaring é um daqueles álbuns que se transforma a cada execução. O seu poder está em não só nos fazer questionar sobre o mundo que nos cerca, mas sobre nós mesmos e a nossa visão de mundo, pendendo para um lado muito mais humanitário e esperançoso que reflexivo e depressivo.

E isso é afirmado em auxílio pela única participação especial do álbum, Earl Sweatshirt. Desde a última colaboração de ambos, há quase uma década, no sombrio e distópico Some Rap Songs, o mundo de ambos colapsou e se transformou. Earl, agora como um pai, demonstra essa superação de traumas em um verso que estende o tema trabalho com Navy, transformando as perdas e dores em lições, tirando a melhor experiência possível dali. Essa transformação se evidencia na forma como ambos conduzem os seus versos. Se em “The Mint” as vozes eram carregadas, rastejantes e pesadas, quase em um certo transe, “24 Gospel” mostra ambos externando essa clareza em versos claros que evidenciam ambas as transmutações de dor em esperança.

The Sword & The Soaring tem como principal valia o ensinar ao ouvinte não a superar tragédias, mas aprender a caminhar com elas. É sobre perder as asas, mas ainda ter a esperança de que um dia você irá voar. Um projeto extremamente complexo, mas gratificante o bastante para aquele que embarcar em sua jornada.

Selo: Freedom Sounds
Formato: LP
Gênero: Hip Hop / Abstrato, Drumless.

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