Crítica | Idol Melodies


★★★★

Melodi Ghazal gravou seu álbum de estreia completo como parte de sua tese na RMC (Rhythmic Music Conservatory), a partir de um processo lento e alimentado por ideias iniciais voltadas para bateria daf frame. “No processo de escrever canções, estou sempre navegando por um sentimento de desejo/saudade que surge quando a melodia está certa”, ela diz no material de divulgação para a imprensa. Talvez por isso Idol Melodies dependa – e muito – deste fator, o melódico. Para dar forma às melodias que insistiam em permanecer em sua mente, Melodi recrutou alguns nomes de destaque: Peter Bruhn Rasmussen na guitarra elétrica, Albert Hertz no violão acústico e a compositora dinamarquesa Fine Glindvad na consultoria final da produção.

O álbum, lançado pela Anyines, revela sua ardência logo nos primeiros segundos. Os vocais atmosféricos de Melodi em “Heart on the Loose” emergem entre sons oceânicos, que parecem retirados do jardim de Utopia, da Björk, enquanto sopros e batidas metálicas, ecoando a uma distância segura, começam a se chocar. É a transição perfeita para “Destinies and Melodies”, em que ela canta sobre se render a forças inexplicáveis que, instintivamente, para ela, geram criatividade. Em tom primorosamente acessível, a música se aproxima de algo que poderia habitar um espaço comum entre Erika de Casier, Smerz e Dido, mas de uma forma que não se iguala a nenhuma delas, sobretudo pelas raízes iranianas de Melodi.

Sua voz anglo-persa remete às próprias referências musicais, que vão dos sucessos iranianos pré-revolucionários ao pop de Los Angeles surgido nas décadas de 1980 e 1990. Acordes de guitarra percorrem notas mais duras em alguns momentos de “Higher”, mas, para além disso, o movimento do disco se concentra nas palavras ditas por Melodi, que percorrem insistentemente o centro de emoções ancoradas em suas experiências amorosas e em algo próximo de um colapso pessoal, cuja cura está nela mesma. “Numb”, por exemplo, soa como um momento em que ela consegue extravasar seus pensamentos e estabelecer uma posição de proteção, de modo que a repetição de “numb” e os acordes mais densos funcionam como ponto de ruptura nesse entendimento que atinge as pessoas ao seu redor.

A partir daí, o álbum assume cada vez mais seu tom lírico direto, com vocais e instrumentais guiados por uma calmaria em que o foco reside em construções etéreas, como na sequência de “Miracle” e “Leap of Faith”. A particularidade da voz de Melodi a ajuda a trabalhar bem nessa estrutura downtempo, com uma serenidade que por vezes evoca Erika de Casier, mas com contornos próprios que partem de uma descrição pessoal bastante única.

Em “In My Room”, um dos pontos altos do disco, ela utiliza a introversão adolescente para explorar o relacionamento com pais recém-imigrados, correspondendo a uma experiência que não se assemelha a nada do que você já tenha ouvido, seja em termos sonoros – com um som analógico que viaja no tempo, cruzando o céu estrelado do pop com ares sofisticados de R&B/Soul pós-Sade –, seja no campo narrativo, elemento fortemente trabalhado por ela como catalisador de toda a concepção do álbum, que parece expor uma pilha de sentimentos e realizações individuais elaboradas em uma escala de proximidade hipnotizante com o ouvinte. É confortável por um lado, mas espinhoso por outro, exatamente como a música, a boa música, deve ser hoje.

Selo: Anyines
Formato: LP
Gênero: Pop / R&B

Matheus José

Graduando em Letras, 24 anos. É editor sênior do Aquele Tuim, em que integra as curadorias de Funk, Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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