
★★★
Na última década, o rap abstrato norte-americano tem se consolidado como o polo mais criativo do hip hop contemporâneo, impulsionado por artistas que transformam introspecção e experimentação sonora de qualidade em linguagem estética. Dentro desse cenário, Sideshow surge como uma das vozes mais criativas de sua geração. Em TIGRAY FUNK, o rapper demonstra exatamente o porquê. Combinando a estética tradicional da Costa Leste, de onde é nativo, com o abstrato que tanto percorre durante a sua carreira, o rapper encontra um equilíbrio perfeito entre os dois estilos, trazendo ainda novas influências e expandindo a sua criatividade a níveis sublimes.
Com flows influenciados por seu labelmate MIKE, o artista traz uma nova roupagem, flutuando sobre instrumentais tão caleidoscópicos quanto suas rimas. Sua entrega transita entre o intoxicado e energético, entre o lento e impulsivo, mas, em contraste, as músicas soam clinicamente diretas ao ponto.
Num primeiro momento, a divisão e sua extensão causam estranhamento, porém, a sua atmosfera se torna tão flutuante que faz o ouvinte atravessar as quatro partes sem o mínimo esforço. Entre voice memos, conversas e confissões, Sideshow mostra as oscilações da vida entre momentos de paranoia, reflexão e estrelismo. Ele consegue emular com exímia precisão o quão abstratas podem ser as emoções em momentos completamente dispersos. Há momentos de reflexões pertinentes (“VOLUME METRIC”) e confiança completamente contagiante e abrasiva (“I AM DA CAPTAIN”) que não deixam o álbum perder a sua sequência, com a primeira parte sendo uma perfeita amálgama de paciência e energia contagiante.
Um dos triunfos do álbum não é só a sua consistência absurda e o equilíbrio perfeito, mas principalmente o seu elemento surpresa. O ouvinte realmente nunca sabe o que será a próxima música, como se novas áreas de um mapa extenso fossem desbloqueadas a cada exploração, a cada minuto. “ MY CHEMICAL ROMANCE” começa com sintetizadores melódicos completamente sedutores, enquanto Sideshow entra em uma viagem quase niilista sobre o vício em lean. Logo em seguida, “MARTYR MOST HIGH” apresenta uma produção muito mais voltada para o rap de vanguarda, com baterias fortes e pratos mais cintilantes, com samples e sintetizadores claustrofóbicos. A estética nos traz a lembrança de rappers como ELUCID, MIKE e Pink Siifu. Na faixa, o rapper contempla a perda de quem ele era diante de sua própria transmutação, utilizando a dor do passado como motivação para a mudança do presente. Alinhado com isso, ainda há espaço para seus questionamentos sobre a sociedade atual, como denota na ponte da canção:
My biggest sin is my pride and my fuckin' ego / So, so much pride, I can't see people, I can't hear people / I close my eyes and I see dead people, uh
Mas, mesmo com a criatividade em seu maior momento, as experimentações e diversificações que o artista propõe às vezes carregam as suas falhas, com um segundo disco muito menos interessante do que o primeiro e os que se seguem, sendo a margem de erro que se cria em álbuns que se experimentam e se diversificam.
TIGRAY FUNK é o resultado de quando há ousadia em se contar uma história que pode até ser simples à primeira vista, mas que revela as suas camadas ao longo do tempo. Mesmo com leves tropeços, o projeto nunca perde o seu propósito: capturar a instabilidade emocional de quem vivencia a introspecção, vício, ego, dúvida e criatividade. É na imprevisibilidade que o disco se grandifica, solidificando-se como o mais conciso e palatável da carreira de Sideshow. TIGRAY FUNK é vivo, mutável e surpreendente, refletindo com precisão as próprias oscilações emocionais que busca retratar.
Selo: 10k
Formato: LP
Gênero: Hip Hop / Rap