Crítica | "Bote Arca pra Tocar"



★★★½

A estreia de Wândalo com "Bote Arca pra Tocar" é eletrizante, é a síntese inteligente de um artista que mistura de maneira bastante acertada suas influências regionais.

A maneira como os brasileiros se comunicam na internet é uma das coisas mais peculiares que existem no mundo virtual hoje. Dos memes às gírias, o Brasil tem uma linguagem própria na web. Um fenômeno que exemplifica um pouco disso são as paródias de forró de canções internacionais — versões que trocam o instrumental oficial por um do ritmo popularmente famoso no nordeste do país — e que são um verdadeiro sucesso nas redes sociais, atraindo milhões de visualizações e curtidas.

Além de ser uma simples piada na internet, o forró tem se reintroduzido cada vez mais na música pop nacional por meio de artistas como Pabllo Vittar, que, desde sua estreia em 2017 com o estrondoso hit "K.O", chama a atenção por trazer em seus trabalhos os ritmos populares do Brasil; e Getúlio Abelha, que faz do forró o mais tradicional palco para a mistura maravilhosa de suas inspirações pop com muita criatividade.

Com "Bote Arca pra Tocar", do piauiense Wândalo, ele também quer dar sua contribuição a esse novo movimento de reintroduzir os ritmos nordestinos no mercado fonográfico brasileiro. A faixa, que traz um sample de “Rakata”, da cantora e produtora venezuelana Arca, é usada de forma inteligente e divertida para unir o neoperro experimental com o forró brasileiro, e narrar a insatisfação de Wândalo de estar em uma festa que não toca as músicas de Arca.

Além disso, o sample funciona como um plano de fundo central, algo bem diferente das versões parodiadas que são feitas de forma despretensiosa na internet que se baseiam em trocar completamente os instrumentais originais por um forró, e nessa inversão temos um resultado incrível: as guitarras e sax se misturam de modo impecável com a maquinaria de Arca, e o metal produzido a partir da queda de panelas é utilizado para reproduzir um estereótipo muito comum de música experimental e barulhenta como sátira, tendo como resultado final o som estilístico de um triângulo, instrumento percussivo muito comum no xote, xaxado e baião — vertentes do forró tradicional.

A estreia de Wândalo com "Bote Arca pra Tocar" é eletrizante, é a síntese inteligente de um artista que mistura de maneira bastante acertada suas influências regionais com internacionais para nos presentear com este forró arrasta-pé hyperpop. Com esta excelente e inusitada faceta, o intérprete consegue deixar a própria marca dentro dessa nova onda e nos deixar ansiosos por seus seguintes passos experimentando as possibilidades criativas com o forró.

Selo: Wândalo
Formato: Single
Gênero: Eletrônica / Forró, Hyperpop
Joe Luna

Futuro graduando de Economia Ecológica (UFC), 22 anos. Educador ambiental, e redator no Aquele Tuim, onde faço parte das curadorias de MPB, Pós-MPB e Música Brasileira e Música Latina/Hispanófona. Além disso, trago por muitas vezes em minha escrita uma fusão com meu lado ambientalista.

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