Crítica | Muito Sol


★★★★

Em Muito Sol, Ricardo Dias Gomes nos leva em uma viagem psicodélica por suas memórias e meditações reflexivas.

A mudança de um lugar para outro está sempre atrelada a sensações que possibilitam fazer comparações sobre o lugar onde estávamos estabelecidos e o qual estamos nos movendo. Sempre haverá um choque cultural e afetivo, pois, a maioria de nossas recordações estão ligadas às pessoas e os lugares que vivemos ou visitamos.

E, para o carioca Ricardo Dias Gomes, estas inferências são as bases que sustentam seu álbum, Muito Sol, que reflete sobre o lugar, as memórias ao se mudar e o impacto que isso trouxe para si. O álbum é dividido em três atos, e traça em sua narrativa lírica, reflexões sobre essa sua nova jornada em um lugar completamente desconhecido à medida que volta no passado para se debruçar em lembranças específicas.

Em “com 6 anos”, reflete que nesses primeiros estágios da vida humana recebemos muitas informações, porém, não somos capazes de processar tudo. “Receber muito, processar pouco”, por sua vez, espelha muitas dessas informações que ficam dispersas ao passo que crescemos e adquirimos um maior entendimento sobre aquilo que, quando crianças ou jovens, não somos capazes de compreender.

Outro grande destaque da obra é “coração sulamericano”, repetidamente, embalado por guitarras e algumas vezes um breve saxofone, Gomes entoa quase que como um sussurro sútil o título da faixa diversas vezes — reafirmando suas raízes latinas para deixar claro de onde sua inspiração artística está vindo e guiando sua obra. Além disso, o projeto se sobressai divinamente ao fazer das transições de atos uma parte fundamental, funcionando como uma espécie de introdução para aquilo que vem a seguir.

Ricardo une a MPB tradicional com diversas técnicas de distorções sonoras, criando em suas combinações com instrumentos percussivos e sintetizadores, faixas permeadas de riffs de guitarras, que são sutis, imersivas e, também, agressivas, o que acentua a diversidade atmosférica do disco.

Tambores e saxofones se misturam em ambientes opacos onde sua voz é ressaltada enquanto canta sobre a mudança de cenário, e se adequa às suas emoções que ainda não possuem vínculos para reproduzir em suas memórias afetivas as mesmas lembranças que tinha antes de se mudar. Gomes em Muito Sol, nos leva em uma viagem psicodélica por suas memórias e meditações reflexivas. O sol é forte, mas em vez de queimar, se torna a ponte do renascimento e o pontapé da jornada que ele está seguindo agora.

Selo: Hive Mind Records
Formato: LP
Gênero: Experimental / Ambiente, Jazz
Joe Luna

Futuro graduando de Economia Ecológica (UFC), 22 anos. Educador ambiental, e redator no Aquele Tuim, onde faço parte das curadorias de MPB, Pós-MPB e Música Brasileira e Música Latina/Hispanófona. Além disso, trago por muitas vezes em minha escrita uma fusão com meu lado ambientalista.

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