Crítica | Laurels of The End of History



★★★★

Laurels of The End of History passeia pela cultura e sonoridade da música latino-americana em uma vasta experimentação de sons modernos.

Ao retratarmos as diversas histórias que permeiam a constituição da América Latina, caímos sempre em reflexionar apenas sobre as particularidades de longo prazo da colonização europeia e dos diversos golpes de estado em países centro-americanos e sul-americanos apoiados pelos EUA, além de diversos outros aspectos ruins sobre a nossa própria história.

Que fique claro, não espero que com a minha análise da história tenhamos que deixar de contar ou retocar os fatos inquestionáveis sobre os genocídios e a constante intervenção imperialista que sofremos até hoje, no entanto, é preciso que saibamos homenagear esses que estiveram na linha de frente da resistência contra todos esses malefícios; que lutaram bravamente para não deixar que as culturas fossem apagadas e os povos dizimados em nome do progresso europeu e/ou americano. Nunca podemos esquecer os erros que foram cometidos durante anos, décadas e séculos, mas também não nos cabe aceitar que isso seja a única parte a ser contada.

Ademais, Cime, cantora trans hondurenha com carreira sediada no sul da Califórnia, homenageia esses heróis que a história insiste em apagar e os corpos que tiveram suas vidas ceifadas em nome do progresso no seu excelente EP Laurels of the end of History, uma extensão mais saudosa do passado, ao contrário de seu álbum de estreia, The Independence of Central America Remains an Unfinished Experiment. O novo trabalho passeia de maneira mais saudosa pela história, cultura e sonoridade da música latino-americana em uma vasta experimentação de sons modernos combinados com a instrumentação tradicional da música folclórica latina.

Trompetes, tambores, merengue e muito mais unem-se a sonoridades pesadas do punk e indie rock, que se materializam em ricas camadas sonoras que têm o papel de inverter as atmosferas excêntricas e imprevisíveis das faixas ao mesmo tempo que se tornam telas que narram os temas que o Cime vai abordando. Além disso, um ponto muito agradável na obra é como a transitoriedade das músicas faz com que elas se complementam mesmo quando não há recurso de interligação entre elas.

É um excelente trabalho feito por uma artista que sabe exatamente o que está fazendo e que toma as decisões certas no seu processo de criação; isso nos pega de surpresa com essas criações sonoras que tendem a começar com guitarras pesadas e, no final, transitar de forma muito inteligente para um folk latino ou um merengue cubano. As faixas e seus diferentes estilos funcionam como peça primordial nesta homenagem à qual se conta uma história cheia de percalços.

Selo: BSDJ
Formato: EP
Gênero: Experimental / Folk, Avant-Folk
Joe Luna

Futuro graduando de Economia Ecológica (UFC), 22 anos. Educador ambiental, e redator no Aquele Tuim, onde faço parte das curadorias de MPB, Pós-MPB e Música Brasileira e Música Latina/Hispanófona. Além disso, trago por muitas vezes em minha escrita uma fusão com meu lado ambientalista.

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