Crítica | SAVED!

★★★½

Kristin Hayter, após decidir encerrar sua carreira como Lingua Ignota, retorna com o álbum SAVED!

Elementos cristãos sempre estiveram presentes nos lançamentos anteriores de Kristin Hayter como Lingua Ignota. Vale lembrar, sempre de uma maneira assustadora, servindo de conjunto para toda a experiência imagética perturbadora que seus trabalhos propunham, por meio do noise, da música industrial, os vocais guturais e, especialmente, as letras grotescas, com temas pesados.

Neste novo álbum, vale deixar claro num primeiro momento, o som é bem mais leve, e mesmo assim, é possivelmente o mais assustador de todos os álbuns feitos por ela até hoje.

Desde a primeira música — possivelmente a mais grandiosa de todas, por definir um clima perfeito para toda a experiência do álbum — uma sensação que paira em meio ao gospel das letras e da performance é de que ninguém deveria estar ouvindo esse álbum. Os efeitos de estúdio, combinados com a súbita mudança no final, dá a sensação de que o que se tem em mãos é algo oculto, proibido, que não deveria estar ao alcance de ninguém. Como levar um livro de São Cipriano para casa.

É ao passar por essa experiência da primeira música e ser ambientado por ela que todo o restante do álbum ganha uma forma diferente. Embora a maior parte das músicas sejam Gospel, e fora de contexto as letras poderiam até soar belas canções de adoração, em SAVED! é completamente diferente. Qualquer um dos temas que tocam em qualquer questão mais obscura, torna-se macabro. A adoração a Deus, ou a Jesus, parece uma mensagem subliminar ao oculto. Como aquela sensação de ouvir o canto gregoriano e imaginar igrejas medievais assustadoras. Ou até mesmo a fusão entre o sacro e o profano que trazem as composições de Bach.

A experiência não poderia terminar com uma música diferente de "HOW CAN I KEEP FROM SINGING" — uma das mais assustadoras que já ouvi na vida — , que parece, ao mesmo tempo, inacabada e também assombrada. A canção é um hino batista extremamente conhecido e regravado, e aqui Kristin Hayter adiciona camadas a ela.

Desde a interpretação, extremamente pesada, já antecipada pelo clima geral do álbum, mas especialmente pelos sons de uma pessoa ao fundo falando, durante toda a canção. O que acontece ao fundo, é o "falar em línguas" (ou então, lingua ignota!) e isso amplia essa experiência, tanto dessa perspectiva em cima do assustador, por ser uma interpretação pesada, carregada de uma sensação de choro, medo, ou mesmo de uma devoção extremamente singular. Mas também, uma despedida a seu antigo projeto, que Kristin Hayter optou por largar, pois não queria reviver as sensações de abuso que ela retratava em suas músicas como Lingua Ignota.

Mesmo com todos esses aspectos positivos, a qualidade das músicas em si não sobrevivem tanto a essa atmosfera perfeitamente criada e estabelecida. Se ele não fosse tão bom em sua produção — e por isso, prender sua atenção como um todo — poderia até mesmo dizer que é um álbum um pouco maçante em seu conjunto. O fator replay não é um ponto forte, e não por causa da sua atmosfera de desconforto, mas porque as músicas se prendem muitíssimo nessa primeira experiência que você tem com essa atmosfera, que mesmo genial, é muito frontal e possível de se desmitificar ainda na primeira audição. Por um lado, é um trabalho que pouco se faz nos álbuns hoje em dia, por outro, ele não te convida para revisitá-lo.

Em suma, SAVED! é um trabalho muito diferente e com certeza um dos mais interessantes da carreira de Kristin Hayter até o presente momento. Capaz de fazer você questionar o que está ouvindo a todo instante, e de lhe assombrar, mesmo sendo um disco completamente voltado ao Gospel. Um álbum que mostra que ainda há muitas sensações a serem experienciadas por meio da música, um exemplo de como criar uma excelente atmosfera nada menos que genial.

Selo: Perpetual Flame Ministries
Formato: LP
Gênero: Folk / Avant-folk
Tiago Araujo

Graduando em História. Gosto de música, cinema, filosofia e tudo que está no meio. Sou editor da Aquele Tuim e faço parte das curadorias Experimental, Eletrônica, Funk e Jazz.

Postagem Anterior Próxima Postagem