Crítica | tds bem global



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dadá Joãozinho demonstra, sem modéstia alguma, a sua exímia capacidade em dar às suas músicas características concretas e paisagens reais.

Sempre é vendido, a quem está à margem dos grandes centros urbanos brasileiros, o ideário de que ao migrar para outras regiões onde a prosperidade e o avanço industrial/tecnológico estão acontecendo, irão ter maiores oportunidades e mudanças suficientemente significativas em suas vidas, que tudo será mais fácil e rápido.

Para o carioca dadá Joãozinho, que tem carreira sediada em São Paulo, uma das maiores e mais populosas metrópoles da América do Sul, essa visão é estreitada ao se mudar e defrontar com todas essas fábulas imaginativas que ao longo de décadas foram amplamente divulgadas e vendidas dentro e fora do Brasil em seu álbum de estreia, tds bem global.

Uma coisa bastante interessante que se deve notar sobre recentes trabalhos artísticos na cena musical brasileira, é uma nova espécie de releitura da MPB, seja para atualizá-la, usá-la como inspiração ou uma grande crítica a certos movimentos musicais que foram responsáveis por vender um Brasil que nunca existiu e jamais existirá. E é exatamente isso que João Rocha faz neste trabalho: desmitificar a grande cidade de São Paulo, que mundo afora é vendida como a vitrine do Brasil, algo que ficou gravado no imaginário dos gringos — uma fábula utópica de uma realidade que estamos distantes de conseguir concretizar na prática, que continua sendo repassada, infelizmente, até os dias de hoje —, porém, também faz uma interessante homenagem a diversos ritmos da música popular com bastante criatividade e inventividade.

Em seu trabalho de estreia, Joãozinho narra a respeito das imagens falsamente vendidas dos grandes centros populacionais no geral, discorrendo sempre sobre as desigualdades sociais que também assola esses lugares, como a falta de oportunidades para quem já vive lá e para quem está chegando, e a maneira como um ritmo tão acelerado despoja gradativamente as pessoas de sua humanidade e dignidade, o que faz com que os sentidos se tornem aguçados ou melhor, o único sentido possível de ser sentido neste caso é o cansaço extremo de uma rotina repetitiva, onde tudo é programado ou cronometrado .

Joãozinho, por sua vez, consegue amarrar tudo perfeitamente, nada neste projeto está desalinhado e, também, nada está aqui por acaso. As críticas sociais que sua lírica aborda são extremamente bem arranjadas com suas interpolações criativas com a MPB e música eletrônica. Ele demonstra, sem modéstia alguma, a sua exímia capacidade em dar às suas músicas características concretas e paisagens reais sensações que vão incomodar o interlocutor em alguns momentos, além de transparecer seu vasto conhecimento sobre a música brasileira.

Selo: Innovative Leisure
Formato: LP
Gênero: Experimental / Pós-MPB, Alternativo
Joe Luna

Futuro graduando de Economia Ecológica (UFC), 22 anos. Educador ambiental, e redator no Aquele Tuim, onde faço parte das curadorias de MPB, Pós-MPB e Música Brasileira e Música Latina/Hispanófona. Além disso, trago por muitas vezes em minha escrita uma fusão com meu lado ambientalista.

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