Crítica | MAKHNO I



★★★★

MAKHNO I realiza um passeio brilhante e ligeiramente afoito pelo funk; são ideias como essas que fazem do gênero uma fonte inesgotável de criatividade musical.

Nos últimos meses, a expansão demográfica do funk como parte de uma vanguarda da música eletrônica condicionou diferentes aspectos como marcas únicas do que os seus produtores têm feito. Nem é preciso dizer, porém, que independente de qualquer colocação, o funk — do paulista ao carioca, do mandelão ao beat bruxaria — está longe de ser classificado. É nessa ambiguidade que vivem e desenvolvem, de vez em quando, algumas das melhores aventuras do gênero ao escrachar e homenagear ao mesmo tempo muitas das suas inspirações (não só temáticas) mas também musicais.

Por isso a faixa que abre MAKHNO I, de MAKHNO, se chama “APHEX TUIM”, combinando parte do nome artístico de Richard David James com o ruído, Tuim, que é proporcionado pelo evento alucinógeno decorrente do lança-perfume e que se tornou um meio importante de homenagear a distorção no funk.

Na primeira parte, a faixa resgata a característica IDM da música eletrônica de Aphex Twin, o fazendo a partir de uma interpolação que, no meio, sofre uma ruptura, o áudio é propositalmente diminuído, evitando que o ritmo mude bruscamente: é uma transição. Assim, a outra parte abandona a referência de Aphex e foca quase literalmente em Tuim — com direito à uma explicação furtiva do que se trata. Como se fossem duas músicas em uma. É brilhante.

“SENTA E CONTRAI (MELÓDICO)”, é o oposto da colocação entre parênteses no nome: a melodia, do vocal sampleado, é perturbada por tiros metálicos, que transcende para arranjos tubulares na sequência, “MACHUCA CLITÓRIS”. Enquanto isso, “PASSINHO DE ALLAH” revive o canto árabe numa mistura com tomborzão. Fora da sazonalidade, “FINO ASSOMBROSO NATALINO” é um dos pontos mais interessantes, não só pela sonoridade, mas pela letra com vocais que tem mais de uma imposição: são vários funks natalinos apoiados por um ambiente em que o arranjo de sons vão além daqueles originais impostos.

Por fim, “CAVALO CORE” retorna com referências eletrônicas adversas, desta vez mais focadas em um conjunto indecifrável de breakbeats que, novamente, invocam o tamborzão. É um passeio brilhante e ligeiramente afoito pelo funk; são ideias como essas que fazem do gênero uma fonte inesgotável de criatividade musical.

Selo: Independente
Formato: LP
Gênero: Funk / Experimental
Matheus José

Graduando em Letras, 23 anos. No Aquele Tuim, faço parte das curadorias de Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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