Crítica | Walls Have Ears

★★★½

Disco ao vivo já antigo para os colecionadores e caçadores de bootleg, agora lançado oficialmente com uma qualidade de áudio superior, mostra a banda variando em cima de seu próprio repertório.

Hoje em dia, a banda Sonic Youth é majoritariamente conhecida por seus discos do final dos anos 80 em diante, o que não surpreende, pois nessa época eles colecionaram singles e tornaram sua abordagem um pouco mais pop. Isso acaba por decepcionar alguns fãs de sua fase mais antiga, menos pop, consideravelmente mais livre e mais próxima do cenário independente.

O que acontece em seu novo lançamento, é que Sonic Youth retorna aos seus shows do início de carreira — especificamente 1985 — lançando oficialmente um disco, lançado sem seu consentimento em 1986, que demonstra, em partes, a voracidade e energia que essa primeira fase deles possuía. Desde as interações de Thurston Moore com o público, o pequeno caos que se forma com os diversos efeitos de guitarras, e mesmo a própria seleção de músicas dão a entender essa agressividade e irreverência típica da banda na época.

O disco é divisível em duas partes, faixas 1 (“C.B.”) a faixa 7 (“Spahn Ranch Dance”) e 8 (“Blood on Brighton Beach”) a 17 (“Killed and Kicked Off”), pois foram gravadas em shows diferentes, com uma semana de diferença de um para outro. A primeira parte é muito boa, demonstra um período de transição interessante da banda e ainda apresenta músicas posteriormente gravadas em estúdio em seus momentos mais iniciais, um deleite para os fãs mais assíduos.

O que impede mesmo essa primeira parte de ser ainda melhor é a própria mudança estética que a banda estava fazendo na época. Um ano depois de gravação desses discos ao vivo, o Sonic Youth lançava EVOL, um disco do início de sua transição para um som mais melódico — ainda que não tão pop quanto o dos anos 90 —, então muito das ideias originais das músicas acabam se perdendo numa tentativa de formar uma atmosfera mais melódica e quase psicodélica para elas.

Por um lado isso é positivo, pois demonstra uma certa habilidade da banda em conseguir variar em cima do próprio repertório; por outro lado, é um abandono da capacidade performática mais interessante que eles tiveram nos anos 80. Um grande exemplo dessa segunda parte é a ausência de Kim Gordon nos vocais ao longo de todo o disco — para quem conhece a banda, sabe notavelmente que ela possuía um espírito de agressividade mais notável que Moore e costumava gritar muito mais durante suas performances catárticas.

Além disso, o som limpo e distante dessa primeira parte do disco perde um pouco da própria identidade do noise rock da banda. Entretanto, isso pode ser facilmente explicado dado a circunstância de ser um disco lançado oficialmente que antes foi gravado e distribuído como bootleg pelos fãs, então a preocupação com som quando gravado não era a principal.

O destaque maior dessa primeira parte do disco fica mesmo para a sequência "Expressway to Yr. Skull" (também conhecida como “Madonna Sean and Me” ou “The Crucifixion Of Sean Penn”) e “Spahn Ranch Dance”, (também conhecida como “Death Valley '69”), duas músicas interessantíssimas e que permitem e entregam sempre performances maravilhosas, e sempre diferentes. Aqui, “Expressway…” é tocada pela primeira vez na história da banda e já é notavelmente um marco.

Contudo, o brilho mesmo desse disco está na segunda parte. Visto que, mesmo ela possuindo até mesmo algumas músicas iguais à primeira, as versões são quase completamente diferentes, com uma energia muito mais agressiva, muito mais voracidade e indiscutivelmente mais destrutiva. Só a presença avassaladora de Kim Gordon e o instrumental quase cacofônico em “Ghost Bitch” é o suficiente para notar isso.

Mas obviamente os elogios não param por aí. Toda essa parte é maravilhosa e aposta muito na energia, como dito anteriormente, mesmo as músicas que já existem na outra parte se tornam exclusivamente diferentes — e, honestamente, muito melhores. Mesmo elogiando “Death Valley ‘69” na primeira parte, é ainda mais louvável a sua performance na segunda, as guitarras e os vocais de Thurston Moore são tão livres e vívidos que a sensação é de estar no quarto com a banda tocando para você.

Ademais, um dos grandes destaques das músicas exclusivas da segunda parte é “I’m Insane”, originalmente parte do disco de estúdio Bad Moon Rising, uma música assustadora, lotada de usos experimentais de instrumentação e que é performada de uma maneira fenomenal, sem tentar ser uma mera cópia de sua versão de estúdio, mas utilizando a energia do próprio show e o que está ao alcance da banda para criar uma versão eletrizante e única dessa canção — são momentos e atitudes assim que elevam Sonic Youth a uma categoria maior na música, e isso também é prova da superioridade desta segunda gravação no disco.

Enfim, o trabalho em geral demonstra ser muito bom. É inestimável poder ouvir esses documentos seminais da banda de maneira oficial. Ainda que o disco possua notavelmente um momento melhor que o outro, ainda é ótimo poder escutá-lo, mesmo que seja apenas as partes melhores dele, ou ainda apenas apreciar a capacidade da banda em conseguir variar seu próprio repertório de forma tão única em um intervalo de uma semana. Sonic Youth permanece como uma das bandas mais livres e diferentes que já existiram, Walls Have Years é um mero registro disso.

Selo: Goofin’
Formato: Live
Gênero: Rock / Noise Rock, No Wave
Tiago Araujo

Graduando em História. Gosto de música, cinema, filosofia e tudo que está no meio. Sou editor da Aquele Tuim e faço parte das curadorias Experimental, Eletrônica, Funk e Jazz.

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