Crítica | What Now


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Brittany Howard pinta suas angústias com cores vibrantes em What Now, um registro revigorante que honra o passado e abre portas para o futuro da música soul.

Em seu segundo disco solo desde o anúncio de um hiato de tempo indeterminado do prestigiado grupo Alabama Shakes, no qual era vocalista e guitarrista, Brittany Howard expande as fronteiras do soul à sua maneira. Se Jaime (2019) era contemplativo e simplista, What Now é ambicioso e opta por caminhos pouco convencionais para a construção de sua psicodelia, marcada por um excelente trabalho de mixagem e texturização que, além de adicionar bastante autenticidade ao projeto, engaja o ouvinte em suas narrativas e cria um efeito hipnotizante — é um deleite explorar as nuances criativas destas canções e descobrir novos detalhes a cada escuta.

Tanto musical, quanto tematicamente, What Now é um verdadeiro turbilhão. Gravado e conceptualizado durante a pandemia, o registro lida com questões existenciais por uma lente pessoal. As idas e vindas do amor, a busca por liberdade e a depressão, por exemplo, são alguns dos temas embalados pela voz incontestável de Brittany e por uma produção igualmente diversa que passeia pelo R&B, jazz, neo-soul, rock e, até mesmo, pelo house.

Mas talvez o ponto mais interessante do disco seja a forma como ele utiliza esses gêneros para evocar um sentimento e uma estética que, ao mesmo tempo que é old school e, certamente, soa como um resgate do passado, é extremamente atual e original. De fato, há, nas faixas, uma energia descontraída no uso rasgado dos sintetizadores e da percussão desenfreada que remonta a estranheza revolucionária de Prince ao passo que, também, permite que Howard faça sua própria revolução. E, com ela, What Now mostra-se um registro revigorante, que honra o que já é consagrado e abre portas para o futuro do soul.

Cabe, aqui, ressaltar a importância do gênero como um movimento cultural bastante expressivo nos anos 70 e 80, mas que, ainda hoje, move multidões ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Pessoalmente, tenho contato com grupos de Belo Horizonte que reúnem, nos finais de semana, centenas de pessoas em suas apresentações nas ruas. E, por mais que a abordagem deles seja mais tradicional, a proposta não foge muito do resgate que Brittany Howard faz em What Now. Ambos são igualmente energéticos, ardentes, viscerais, e possuem o mesmo objetivo: manter a música soul viva — sem dúvidas, eles estão fazendo isso, cada um da sua maneira.

Selo: Island Records
Formato: LP
Gênero: Psychedelic Soul
Marcelo Henrique

Marcelo Henrique, 21 anos, estudante e redator no site SoundX e no Aquele Tuim, em que faço parte das curadorias de Pop, R&B e Soul.

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