Clássicos do Aquele Tuim | Desertshore (1970)


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E se a vida não for o suficiente?

“Faça parentes e não bebês” é o que uma das Camilles, uma fabulação especulativa, ensina à Donna Haraway em “Ficar com o problema: fazer parentes no chthluceno”. Toda vez que se pensa sobre a necessidade da vida é sempre a primeira armadilha, ficar em torno da moralidade sentimental, defender a vida a todo custo, ou pensar estratégias, questionar o sistema e os recursos atuais. A vida pode ser destruída em tão pouco tempo, mas em algum momento a gente soube como usá-la?

Se existiu em algum momento aqui na América um contato vivaz com a vida, uma relação de parentesco única, foi antes da colonização. “Liberdade, igualdade, fraternidade”, essas foram as coisas que os europeus aprenderam com os indígenas, antes mesmo de aplicar à sociedade deles. Nenhum desses princípios significa nada que não uma defesa à vida, o racionalismo feroz e a aceleração industrial destruíram a conexão dessa defesa com a própria necessidade da conexão com a natureza, foi o que os europeus ignoraram.

Questionar a visão de tempo se faz necessário, afinal, para entender a vida é necessário especular onde ela começa e onde ela termina. A linearidade da visão européia é notável, a sucessão de eventos, o determinismo, a inevitabilidade, e, com isso, o medo do fim da vida. Todos nós temos medo do fim da vida, mas não no mesmo sentido. Ter medo do fim da vida não é o medo da morte — existe uma disputa pela racionalidade nesse aspecto também. Elon Musk não tem medo do fim da vida, fugir ao espaço, a reprodução minoritária da humanidade, da racionalidade humana, é o suficiente. É um novo mundo, do mesmo velho jeito que ele sempre foi.

Importante notar que fazer parentescos não significa exclusivamente estar conectado de forma inter-espécie, fazer parentescos é estar conectado em vias humanas também. A sociedade patriarcal, burguesa e capitalista destruiu a visão de parentesco, criou o “outro”, assumiu uma guerra entre nós mesmos. Os feminismos radicalizados assumem uma posição com outras formas de criar parentescos, da mesma forma o “modo de vida gay”, o movimento queer, movimento anarquista… É construir com os corpos o que foi retirado deles. Assumir uma posição de intimidade consigo, com as espécies e com a sociedade e o mundo é inserir-se numa forma radical de viver.

Claro que as artes se encontram nesse espaço de radicalidade, não à toa as artes de vanguarda desde o início do século XX deram as costas para a Europa e buscaram referências dentro da América e da África. Há algum tempo, estive pensando sobre a possibilidade dos renascentistas terem atingido a máxima resposta do “por que fazer arte?”, quando decidiram que era para se aproximar de Deus. Entretanto, deus é a nossa forma de parentesco mais complexa, e uma forma que não abarca nossa complexidade contemporânea, acredito que hoje em dia nós produzimos formas de conexão com o “outro”. Criamos parentescos com a arte, e nisso Deleuze não estava tão errado ao dizer que a arte é a reprodução e o atravessamento de afetos.

Mas uma coisa sobre viver que não se pode deixar passar, agora que se finaliza essa mera chuva de ideias, deixar morrer é também a nossa vida. A forma cíclica do tempo, que sempre foi demasiado importante para as sociedades não-ocidentais (europeias). Ser feito de poeira e voltar a ser apenas poeira, é até mesmo uma ideia judaico-cristã, escatológica, punitiva e deprimente, mas está ali. O nosso pavor de se conectar mais uma vez, de servir para as próximas vidas, de estar sempre inserido nos próximos parentescos das próximas gerações, de ser engolido mais uma vez pela terra, é um pavor que nos foi dado. É um moralismo que atravessa a barreira da simples vontade de viver, mas que não dá liberdade à vida em si mesmo.

A vida em si mesma é insuficiente, nesse momento a gente respira algo, para alguns, respiramos deus, para outros, respiramos o ar, de qualquer forma não respiramos todos, a vida? O que te faz conectado inevitavelmente com todas as espécies a partir disso é a capacidade de estar inserido nesse ciclo, então o que impede o parentesco? Quem ainda desmobiliza tanto a nossa capacidade de refazer a sociedade, de buscar formas alternativas de vida, de saber, de conhecimento? Por que o interesse na defesa da fuga, uma armadilha de acreditar num pós-humanismo liberal, como o de Elon Musk, citado anteriormente. Nossos corpos são armas, e nós podemos muito bem criar nossas próprias formas de usá-lo, a resistência começa aí. Isso não é um discurso coletivista vazio, muito menos liberal para lhes dizer que as regras do teu corpo são vocês que fazem. Isso é uma defesa da potência de viver.

E não se engane, não é uma crítica aos avanços tecnológicos (mesmo a Donna Haraway citada no começo já mostrou um grande apreço pela figura do ciborgue dentro do feminismo), os avanços são úteis e ótimos, mas até que ponto eles são apenas dispositivos, ou são dispositivos de controle? Saber o que fazer com eles, experimentar resistências por via da tecnologia também é uma ação grandiosa, e eu tenho tanto interesse nisso, quanto todo o resto que aqui foi dito.

E é aqui, finalmente, onde eu chego nesse álbum. Provavelmente já deu para perceber como eu sou fascinado pelas formas de visualização do parentesco e da conexão com a vida/terra que existe em todos os seus quase 30 minutos de duração. Do mais simples anseio de Nico em enviar mensagens ao seu filho em “My Only Child”, escutar ela sussurrando a letra para ele no final de “Le Petit Chevalier”, o instrumental minimalista quase natural ao estilo lírico de Nico durante todo o disco, a proximidade temática com coisas tão simples da vida, uma vida que chega a idade adulta — o momento mais difícil de se construir parentescos, na nossa sociedade — mas que não perde o brilho da vida em momento algum. Quando os amigos de Nico decidiram tocar Mütterlain em seu funeral, eles imortalizaram a relação da cantora com seu primeiro parentesco, a terra, não apenas um fim de ciclo. É isso que estamos respirando agora. Precisamos reconquistar esse espaço.

Selo: Reprise
Formato: LP
Gênero: Folk / Avant-Folk, Chamber Folk
Tiago Araujo

Graduando em História. Gosto de música, cinema, filosofia e tudo que está no meio. Sou editor da Aquele Tuim e faço parte das curadorias Experimental, Eletrônica, Funk e Jazz.

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