Crítica | DJ E


★★★★

Para muito além de rótulos como inovação e criatividade, DJ E é resistência artística.

“O que é música?”, todo mundo que gosta e se dedica a aprender sobre música já se deparou com essa pergunta, seja internamente, ou através do questionamento de alguma outra pessoa. Assim como em qualquer forma de arte, é praticamente impossível dar uma resposta, que seja totalmente satisfatória, a essa pergunta. É simples colocar no google e saber o que geralmente são melodias, harmonias e ritmos — os elementos tradicionais da música. Para quem já se aventurou no experimental, seja no noise, power electronics, sound collage, onkyo, jazz etc., essa explicação às vezes parece muito simples.

O álbum DJ E de Chuquimamani-Condori, DJ de música eletrônica e ativista indígena Aymara, é mais uma das formas de bagunçar essa perspectiva; de deixar qualquer um se perguntando “o que é que faz disso aqui música?”. Esta é uma pergunta que, apesar de instigante, provavelmente é boba. Não há dúvida de que cada segundo deste álbum é, sim, música, e mais ainda, é arte. Mesmo todos os elementos tradicionais citados acima estão aqui, mais bonitos do que nunca, de formas completamente diferentes do que foi explorado ao longo do ano por outros artistas.

Nos projetos anteriores de Chuquimamani-Condori (aka. E+E, Elysia Crampton), a inovação sempre se fez presente. O estilo deconstructed club — que tenta adequar e unir os ritmos mais característicos da EDM à música avant-garde, aos ritmos latinos, ao pós-industrial, etc. — é a associação geralmente feita à essa discografia. O que é bastante adequado, visto que em cada álbum/mixtape/dj set novo, é possível encontrar tudo isso e nunca antes da exata mesma forma. E em seu novo projeto, DJ E, isso não acontece de forma diferente.

O álbum foi criado a partir da “sound collage”, isto é: colagens instrumentais de outras músicas e samples, que sempre causa uma certa estranheza, um terrível sentimento de que talvez não haja uma perfeita harmonização entre os elementos. Isso não passa mesmo de uma impressão, o que Chuquimamani-Condori faz em faixas como “Engine” e “Return” é mais harmônico do que muita coisa que se ouve normalmente. Na primeira faixa citada, é quase possível ouvir cada uma dessas engrenagens se movendo, para frente, para trás, uma grande máquina funcionando; possui até mesmo estrutura, o auge com a adição de mais sons, próximo ao final, criam um sentimento maravilhoso de catarse. Já em “Return”, as colagens são quase ofegantes, sempre apostando em diferentes texturas e sintetizadores psicodélicos. Em alguns momentos, é fácil de associar ao estilo de Arca — ainda que não chegue ao desconforto causado em “&&&&&”, ou “Entrañas”; pelo contrário, pois DJ E é eufórico, quase dançante, muito diferente do clima perturbador dessas duas mixtapes.

Além disso, vale destacar a importância política desse tipo de álbum que ainda persiste em existir até hoje. Em seu instagram, Chuquimamani-Condori diz ter feito o disco sem gravadoras, produtores, agências, distribuidores, ou masterização. Isso é o último suspiro de um músico independente do século XXI, e é esse o estilo de música que ainda vale a pena ser feito. Para muito além de rótulos como inovação e criatividade, DJ E é resistência artística.

Selo: Independente
Formato: LP
Gênero: Experimental / Sound Collage, Eletrônica
Tiago Araujo

Graduando em História. Gosto de música, cinema, filosofia e tudo que está no meio. Sou editor da Aquele Tuim e faço parte das curadorias Experimental, Eletrônica, Funk e Jazz.

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