Crítica | eternal sunshine


★★★½

Em eternal sunshine, Ariana Grande expõe sentimentos recentes sobre sua vida amorosa em músicas que criam um ambiente aconchegante.

Durante os 3 anos e meio de intervalo entre Positions, do final de 2020, até eternal sunshine, muita coisa aconteceu na vida privada de Ariana Grande. Após 3 anos vivendo juntos, a cantora pediu divórcio de seu até então marido Dalton Gomez na segunda metade de 2023, além disso, Ariana começou um relacionamento que gerou muita polêmica. Seu novo parceiro, Ethan Slater, havia começado a se relacionar com ela recentemente e rompido com sua esposa até então, e por conta disso, surgiram falsos rumores de que ele estava traindo sua ex, embora depois tenha sido informado de que eles se conheceram depois de ambos estarem divorciados.

Em seu novo disco, Ariana Grande expõe com paixão suas emoções em relação a esses acontecimentos. O álbum começa com uma introdução na qual ela demonstra seus pensamentos sobre se esse relacionamento que ela mantém é realmente correto e como esse autojulgamento a machuca — “How can I tell if I’m in the right relationship?”, ela questiona. Os questionamentos feitos a si mesma são respondidos na também ótima “ordinary things”, uma música fofa em que a artista diz que não precisa de coisas banais quando tem o namorado por perto. Ao final, a avó responde à pergunta introdutória de uma forma que transmite a mensagem de que, embora você possa se preocupar muito, deve focar nas pequenas coisas, que às vezes são deixadas de lado, mas que são muito importantes.

Outro destaque nesse aspecto é “eternal sunshine”, música que fala em versos divertidos sobre um término que ela já superou. Algo interessante, além do caráter cativante da composição, é a ótima forma com a qual Ariana usa de referência do filme Eternal Sunshine of the Spotless Mind. Ao dizer que seu ex agora será apenas seu eterno raio de sol, ela expressa a importância que dá para as suas experiências com ele por, ao invés de tentar esquecer das memórias, usá-las de lição em sua vida. Isso é uma alusão clara à história do longa-metragem, em que dois antigos parceiros passam por um procedimento para deletar as lembranças desse relacionamento, porém, ao final eles voltam atrás e tentam recomeçar.

Diferentemente das composições, que surpreendem por Ariana conseguir manifestar excelentemente seus sentimentos com acontecimentos recentes na sua vida, seu som não é muito impressionante, apesar de ter seus bons momentos. Entre as faixas realmente excepcionais do registro, se destacam as tomadas pelo dance. “bye” é um disco fenomenal. Enquanto a instrumentação apresenta orquestra lustrosa e grooves funky envolventes, Grande canta em melodias sedutoras sobre terminar com alguém, com seu refrão e ponte trazendo, em termos de melodia, os melhores momentos da obra. Já “we can't be friends” é um synthpop formidável que remete bastante ao trabalho de Robyn. O sequenciador divertido e os synths melódicos doces que relembram músicas como “Call Your Girlfriend” e “Dancing On My Own” da sueca são alinhados à performance suave apaixonante presente na maior parte de eternal sunshine — é um excelente exemplo de como utilizar influências de outros artistas em sua música para realçar as melhores características de suas referências e ao mesmo tempo conseguir ajustá-las perfeitamente à sua identidade artística. Em “yes, and?”, a música carro-chefe do álbum, o piano e a bateria house tentadores e a performance forte da cantora criam uma música arrebatadora.

Nas faixas mais próximas ao R&B também há grandes destaques. “true story” se destaca pelo seu charme noventista fenomenal que remete bastante aos melhores nomes do rhythm & blues no período. Na instrumentação, baixos potentes justamente posicionados às baterias influenciadas pelo hip hop criam um som sedutor, enquanto que a entrega vocal de Ariana soa extremamente atraente aqui. Ainda na excelente referência aos ícones do gênero na década de 90, “the boy is mine” faz alusão no título à faixa de mesmo nome de Brandy e Monica, e no som ela apresenta as devidas influências de forma que, ao mesmo tempo em que relembra essa época, ainda soa atual pela mescla com tendências mais modernas como o trap soul. O resultado, além de ser muito envolvente, é um ótimo exemplo de trazer inspirações do passado e adaptar fenomenalmente com a atualidade.

Embora eternal sunshine tenha seus momentos essenciais, alguns aspectos fazem com que ele não seja um dos maiores destaques na carreira de Ariana. Isso porque grande parte do álbum é composto por faixas que apresentam as mesmas abordagens sonoras que ela já andava fazendo nos últimos 6 anos, mas que aqui não soam tão fascinantes. Isso fica mais evidente nas duas últimas canções. Apesar das guitarras acústicas melancólicas dos versos de “imperfect for you”, seu refrão é marcado por um R&B doce, mas que parece uma versão menos intrigante das faixas de Sweetener. Já “ordinary things” traz percussão trap mesclada com metais que soam simpáticos mas que, igualmente a música anterior, parece um descarte fraco do álbum de 2018. “ i wish i hated you”, por sua vez, traz performance com grande carga emocional, com a cantora ao final apresentando uma interpretação chorosa, representando um dos maiores ápices de intensidade das suas emoções durante o registro. Apesar disso, a produção com os sintetizadores enfadonhos que parecem vir diretamente das opções de alarme de um celular, junto a melodias entediantes, fazem com que nem mesmo o vocal mais belo de Grande consiga salvá-la.

eternal sunshine não está entre os discos mais essenciais de Ariana, porém, isso não o impede de ser bastante carismático. Além das letras reforçarem o quão ela é boa em expressar suas emoções, o álbum consegue, a partir de seu som, criar uma atmosfera muito aconchegante para o ouvinte, além de, mesmo não sendo um grande destaque na discografia de Grande, ter músicas em particular que se destacam no seu catálogo. Talvez quem esperava uma grande mudança artística por causa do single “yes, and?” — totalmente diferente de tudo o que ela já fez —, se decepcione com o projeto. A artista não está empenhada em fazer uma grande inovação nesse momento, no entanto, é um bom disco que traz sonoridades já recorrentes na carreira da cantora alinhado a alguns momentos de exploração mais forte do dance-pop e do R&B noventista que fazem com que o álbum não soe batido.

Selo: Republic
Formato: LP
Gênero: Pop / R&B contemporâneo
Davi Bittencourt

Davi Bittencourt, nascido na capital do Rio de Janeiro em 2006, estudante de direito, contribuo como redator para os sites Aquele Tuim e SoundX. No Aquele Tuim, faço parte das curadorias de Música do Leste e Sudeste Asiático, Pop e R&B.

Postagem Anterior Próxima Postagem