Crítica | A Lonely Sinner



★★★★

A Lonely Sinner é um álbum que, a cada momento, convida à retirada.

O adeus pode ser a última troca que temos com alguém quando percebemos a necessidade de ir embora, de nos afastar. A Lonely Sinner, de samlrc, quase impõe em sua sutileza performática a sensação ou percepção de simplesmente deixar ir — o que basicamente até compreende um sentido expositivo no ambiente online, pois partir nele às vezes pode significar apenas desligar o celular, bloquear uma ou duas pessoas, ou deletar um aplicativo sem deixar rastros, mas fazer tudo isso com dor no coração e pronto para dar play em algo demasiadamente triste.

Por isso este é um álbum que, a cada momento, convida à retirada. Ou você cumpre a ordem ou se encontra em uma posição de rejeição física e mental. Essa impressão, aliás, é parte importante do processo com que as cordas de “Philautia”, aliadas aos riffs intensos e coordenados, tentam impressionar como parte formal da construção de um sentimento. É também por isso que a obra atinge pares dissociáveis dos gêneros aqui representados. Como se dispensasse a sua posição descritiva no denominador comum de que falam os internautas de uma determinada bolha: shoegaze!

Mas é, novamente, mais do que a mera representação auditiva de uma sensação e/ou sentimento. É também por isso que a entrada e a saída, com calma, das texturas procuram tecer camadas livres de construção atmosférica. “Flowerfields” e o piano logo invadido por pequenas e lúdicas composições de palhetas que lembram a infância das caixinhas de música, impressiona pelo tom bucólico, enquanto “Storge” parte justamente do oposto. Expansiva, a faixa adota um signo mais amplo do desespero a que o tema do projeto talvez remeta, acompanhado das pequenas vocalizações da artista que, como no restante da obra, não anuncia quando chegar e tampouco quando sair.

Dos quarenta minutos que se seguem no disco e de sua energia irredutível, além de alguns modismos que incomodam pessoas como eu — que detesta rock e a aquela objeção pouco fascinante do estilo em engrandecer momentos com guitarra —, chama a atenção as dedilhadas acústicas inesperadamente assumidas por distorções e sujidades que, em parte, definem a estética sonora aqui pretendida. E, apesar de tudo, é inegável que estes sejam os pontos altos do adeus que damos a nós mesmos após cruzarmos o subconsciente de samlrc e seu estudo laboratorial da solidão.

Selo: Starrcade Records
Formato: LP
Gênero: Rock / Shoegaze, Singer-Songwriter
Matheus José

Graduando em Letras, 23 anos. No Aquele Tuim, faço parte das curadorias de Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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