Crítica | Queridão



★★★★

Em Queridão, a texturização aposta em uma estética minimalista, mantendo a perspectiva sensorial de algumas linguagens atuais do funk em criar ambientes mais obscuros.

A relação do brasileiro com o funk é estritamente construída pela rua. Neste caso, não é rua no sentido figurado, é a rua mesmo; o asfalto. Veja, exemplificativamente, como o funk paulista se desenvolveu com batidas estonteantes e um certo nível de experimentação propagado, essencialmente, ao lado de eventos específicos que acontecem em bailes como o Helipa, em Heliópolis.

São eventos porque apesar do termo ser bastante específico, o baile em si é um ambiente muito diversificado, que condiciona diferentes DJs, MCs e produtores, diferentes estilos e tipos de funk, cada um à sua maneira, ainda que a maioria faça parte de um todo. Mas é isso que vemos apenas no contexto que compreende os eixos Rio e SP.

É interessante observar essa questão, pois essas diferenças geográficas são responsáveis por desempenhar um papel importante nas características sonoras de cada espaço que compõe o funk brasileiro. Em Belo Horizonte, por exemplo, os bailes foram difundidos de forma bastante modesta, em locais fechados e de difícil acesso. É por isso que o funk mineiro, que foi se criando na necessidade de ocupar espaços, só virou expressão local quando agarrou o caminho das ruas.

Nesse sentido, mais do que se opor às raízes do movimento visto primeiro na figura de alguns MCs e talvez democratizar o estilo, alguns nomes passaram a impor mais as suas assinaturas para delimitar uma espécie de demografia, como fez o DJ Anderson do Paraíso, talvez o maior representante do funk de BH. Em seu álbum Queridão, a texturização aposta em uma estética mais minimalista, sem a cacofonia do funk de São Paulo e sem o tamborzão espesso do funk do Rio de Janeiro. O que conecta essas diferentes linguagens, no entanto, é a perspectiva sensorial — mais atual do que nunca — de criar ambientes obscuros.

Mas, diferentemente do funk paulista, o funk de BH não opta pelas gargalhadas enlouquecedoras dos palhaços, tampouco busca fazer algo que não se adeque à rua como meio de propagação. É por isso que o minimalismo é encontrado nos detalhes, mesmo que o modo de operação seja até que comum e, novamente, ajustado às considerações locais. Faixas como “CONTOS DE UM MALCRIADO”, trazem versos falados, fraseados em uma articulação que combina muito bem com a melodia e a usinagem sonora, como também é feito em “UNIÃO DOS RLK”, em que o berimbau dita o ritmo enquanto os mesmos elementos são repetidos.

Em outros momentos, constrói-se uma organicidade de som, utilizados como recurso estético no funk já há bastante tempo, que fornece uma costura de tecidos interessantes para aprofundar os sentidos opostos ao maximalismo, como o violino em “SE FAZ DE SANTINHA” e o trombone sonolento em “JOGA LEITE”.

Mais do que propor algo novo, é preciso implementar seus símbolos, e Anderson faz isso com algumas parcerias que complementam sua ampliação de horizontes como representante do funk de BH. É brilhante, e Queridão não poderia ser mais competente nisso do que é. O exercício proposto ao longo de suas 17 músicas — cada uma sendo um capítulo da história do movimento — são exposições da mudança, que decodifica e demonstra claramente a sua base: a rua.

Selo: Nyege Nyege Tapes
Formato: LP
Gênero: Funk / Experimental, Funk de BH
Matheus José

Graduando em Letras, 23 anos. No Aquele Tuim, faço parte das curadorias de Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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