Crítica | Renaissance: A Film by Beyoncé (2023)



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Renaissance: A Film by Beyoncé é muito mais que a documentação de um espetáculo de tirar o fôlego. Trata-se, principalmente, de um amadurecimento de linguagem.

Ao tatear o campo do cinema e assumir o controle das suas produções audiovisuais, Beyoncé estabeleceu uma relação intrínseca com a linguagem da sétima arte. Revolucionário por diversas frentes, BEYONCÉ (2013) também foi o responsável por despontar o brilhantismo da artista enquanto cineasta para o público geral. A ideia de álbum visual era fantástica, mesmo que ela ainda não estivesse na sua forma final enquanto identidade de realização — trabalho este moldado por Lemonade (2016) e, principalmente, por HOMECOMING (2019). A peça que documentou o seu show como headliner do Coachella de 2018 formou a ideia do que temos de um documentário da Beyoncé, que divide o seu tempo de tela entre duas instâncias: a exuberância e a energia das suas performances de tirar o fôlego e o caos metódico e reflexivo dos bastidores.

Essa também é a estrutura-base que guia Renaissance: A Film by Beyoncé, o documentário musical responsável por eternizar a Renaissance World Tour, a sexta turnê da vocalista que compreendeu de maio a outubro de 2023 e lotou estádios ao redor da Europa e da América do Norte. Pudemos ter, ao menos nas grandes telas das salas de cinema, parte do deleite da experiência de um show que capturou o espírito do álbum que a acompanha, maximizando o seu impacto e excelência.

Nos primeiros minutos, os nossos sentidos já se afloram em catarse, pois é o momento do discurso de Beyoncé em seu show de aniversário, acompanhado pelas performances de “Dangerously In Love” e “Flaws and All”. Aqui, ela já demonstra que está no máximo de sua capacidade enquanto vocalista, pois é quase impossível não se arrepiar da cabeça aos pés. Depois disso, a interlude de transição para o Ato II nos atordoa a uma experiência quase sinestésica, pois é fascinante ver a silhueta de Beyoncé se metalizar e nos transportar para um complexo de estruturas metálicas e esculturas futuristas. É um filme determinado a se costurar por excelentes escolhas, mantendo o seu ótimo ritmo tanto no acréscimo quanto na falta.

A sensação é que a perspectiva entre tela e palco se esmaece, onde o que vemos de verdade são pinceladas firmes da opulência do espetáculo. Durante todo o show, Beyoncé desfila com peças e figurinos de alta costura, enquanto divide os holofotes com a manifestação da expressão de instrumentistas, dançarinos e equipes técnicas altamente coordenadas. A estrutura e direção de arte amordaçam o nosso fôlego, pois é dotada de complexidade mas se camufla no minimalismo aparente em tons principais de metal e prata. O repertório é de fato excelente, compreendendo a contemporaneidade do que a artista se tornou.

Porém, existe um esforço ainda maior em primeiro plano: o desmonte. Mais que nas suas obras anteriores, o artesanato dos bastidores é a verdadeira força motriz do documentário. Não haveria show sem a progressão árdua de centenas de pessoas, e a coletividade sempre estará em pauta. É aqui, também, que percebemos em detalhe os principais elementos característicos de Beyoncé enquanto realizadora cinematográfica: uso e revezamento de câmeras digitais com filmagens em película, diversos depoimentos, a expressão das metáforas e filosofias da vocalista e, principalmente, o suporte em ser a nossa principal janela para a sua vida pessoal, que se tornou mais privada ao longo dos anos.

Como fã, esse é o registro mais prazeroso de assistir, pois é aqui que a Beyoncé fora dos palcos está exposta de maneira mais natural e vulnerável. Como qualquer documentário autoral, é um olhar partido de uma curadoria que repele o que não quer ser visto, mas, ao menos, os limites da sua exposição se afrouxaram. Podemos ver, com detalhes, o amadurecimento pessoal da artista, como ela está na sua melhor fase da vida e notar a sua resiliência (e da sua família) nas dificuldades. O lema “God Is God. I Am Not.”, exposto na Formation World Tour, nunca se tornou tão atual para representar que, apesar de tanto, ela é humana e imperfeita — e que essa é a melhor forma de encarar e aproveitar a vida. Um momento que demarca essa filosofia e aquece o coração de qualquer espectador são as aparições de Blue Ivy: ela performa junto com a mãe em “MY POWER”, e é nítido como o palco é o seu campo de treino e de maturação artística e pessoal.

E se o documentário em si já é significativo o bastante, a sua estreia nos cinemas brasileiros foi ainda mais especial. Na noite do dia 21 de dezembro de 2023, Beyoncé aterrissou na Club Renaissance de Salvador, trajada de peças metálicas e se tornando notícia por todo o país. No meu caso, tive a notícia assim que saí da sessão, o que tornou o filme uma experiência estendida e um elo de aproximação entre artista e fã ainda mais consolidado. É um atestado claro da preciosidade da forma em que esse filme vive nas nossas memórias (e, por enquanto, é o único meio de acessá-lo. Podemos até dizer que estamos vivendo uma experiência de lost media temporário).

Desse modo, podemos encarar Renaissance: A Film by Beyoncé não apenas como um documentário musical irresistível, mas também como amadurecimento de linguagem. Se apropriando de elementos já estabelecidos na sua filmografia, Beyoncé consegue capturar seus anseios e sua excelência enquanto artista multifacetada e transpor isso de maneira super competente em diferentes frentes. Ela é, de fato, o maior exemplo de vivacidade artística do nosso tempo.



FICHA TÉCNICA
2023 / 169 min
Direção: Beyoncé / Mark Ritchie / Ed Burke
Roteiro: Beyoncé
Gênero: Documentário / Musical
Felipe

Graduando em Sistemas e Mídias Digitais, com ênfase em Audiovisual, e Estagiário de Imagem na Pinacoteca do Ceará. É editor do Aquele Tuim, contribuindo com a curadoria de Música do Continente Africano.

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