Crítica | Something in the Room She Moves



★★★★

O pop de Julia Holter segue o seu vanguardismo assombrosamente pessoal em Something in the Room She Moves.

Quando decidiu se aventurar na música pop, Julia Holter tinha certeza dos caminhos que seguiria para preencher lacunas antes vazias de sentido. Isso significa que ela não buscou apenas alcançar um certo vanguardismo, mas também ampliar a capacidade estilística daquele cenário que cercava grandes estrelas com algum nível de autoria musical — Holter estava focada em objetivos mais específicos.

Seus registros, embora diferentes entre si, sempre continham a marca da época e do local em que nos diferentes momentos de sua vida ela viveu. É por isso que Loud City Song, de 2013, despertou, entre nuances eruditas e estudos de música clássica, uma certa insistência em criar espaços acolhedores para o período de juventude do qual Julia se encontrava e o exato instante que seu público a conheceu (sempre imersa entre referências a linguagens que a música tem saudado, do cinema à literatura).

Agora, Holter ainda vê a necessidade de perpetuar aquele vanguardismo pessoal, de buscar fazer do pop acessível um meio próprio, mas sendo, apesar de tudo, oposto ao que o pop em si significa. Ela continua buscando retratar o momento, por este motivo Something in the Room She Moves nada mais é do que uma oportunidade para exibir a sua respectiva atualidade narrativa.

O álbum surge depois que Julia se torna mãe e perde o sobrinho. Experiências humanas que passam pela escuridão e pela luz ao mesmo tempo, sensação pouco descritiva, mas que encontra semelhança na poesia. Para quem ouve, a explicação pode ser mais solúvel, como passar por um túnel escuro e encontrar o sol brilhando no final ou descer ao nível do mar enquanto sentimos nossos ouvidos sendo rapidamente obstruídos e desobstruídos. É uma exemplificação de estado, do ser e do viver, na medida que canta em “Spinning”, cujas repetições soam como o motor de uma locomotiva a vapor, e sua onomatopeia (pouca terra, pouca terra) acaba fazendo até mesmo mais sentido entre seguir em frente com a vida, ou o “Let me move / Let me roll”.

Julia Holter entende a ordem do existir. A necessidade de morrer para que outras coisas vivam, e esta naturalidade parece ligar melhor o seu lado musicalmente orgânico com as suas percepções terrenas e palpáveis, tipo a intensa meditação em “Meyou”, ou a ligeira confusão de sons e microtexturas anormais em “Evening Mood”, que ainda assim é confortável para a compreensão da artista sobre si mesma após se tornar adulta e, principalmente, após não buscar impor novas faces à cena da qual, no pop, é uma das representantes absolutas. É um álbum que, mais do que nunca, expõe a sua paixão pelo agora.

Selo: Domino
Formato: LP
Gênero: Experimental / Art Pop, Pós-Minimalismo
Matheus José

Graduando em Letras, 23 anos. No Aquele Tuim, faço parte das curadorias de Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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