Crítica | All Born Screaming


★★★★

A melhor versão de St. Vincent em anos é revelada em All Born Screaming.

Não é de hoje que notamos que St. Vincent é uma artista de imensa criatividade. Ao longo de sua discografia, ela expõe uma busca incessante por um fio condutor em meio ao caos, partindo de uma jornada em que o equilíbrio se revela como fuga. Essa essência transparece em All Born Screaming, um álbum que espelha sua capacidade de fundir introspecção, leveza e clareza, tornando seu trabalho esperançoso.

À medida que nos aprofundamos nesta nova peça, somos envolvidos por um universo sonoro em que o rock e o pop rock se fundem. O ritmo alegre, pontuado por batidas vigorosas e propulsivas, convive com momentos de serenidade polida, revelando a face de St. Vincent. Aqui, presenciamos sua expressão mais crua, onde os riffs de guitarra ainda a acompanham, surgindo como elemento marcante na construção das músicas. Além disso, entre nuances de rock clássico, alternativo e progressivo, utiliza-se uma abordagem experimental, em que metais e guitarras são facilmente empregados de forma sutil, ampliando os horizontes de sua sonoridade de maneira menos dominante, mas igualmente impactante.

“Hell Is Near” começa com a voz de Clark sobreposta à melodia suave. No segundo momento da canção, já são perceptíveis as batidas de bateria, guitarra e baixo entrelaçando-se com a música, que descreve um vazio, cheio de memórias fragmentadas e símbolos de um relacionamento antigo — o refrão "Give it all away, you give it all away / 'cause the whole world's watching you" reflete a vontade de ter tudo, contrastando com a sensação de estar exposta e sendo observada pelo mundo.

No mesmo sentido, “Reckless” segue esse caminho de introspecção, em que a imprudência sugere uma entrega total aos sentimentos, mesmo que isso signifique enfrentar consequências dolorosas; é uma música crua, onde apenas a voz rouca da artista se destaca contra o piano que se surge suavemente ao fundo. “Broken Man” investiga a dualidade de uma personalidade que oscila entre o poder e a fragilidade, desafiando o escrutínio externo. Com a voz forte de Annie Clark, a música ecoa a busca por aceitação ao mesmo tempo em que confronta a percepção de ser um ser fragmentado. “Flea” captura a obsessão, descrevendo uma fixação doentia, num momento em que existe a promessa de eternidade face à manipulação e posse — a melodia sombria cria uma imagem perturbadora.

A música “Big Time Nothing” é construída sobre guitarras distorcidas e pesadas, com ritmos intensos, batidas fortes e marcantes. É na espontaneidade e na captação da energia da faixa que a artista fala sobre a pressão da sociedade pela conformidade e a busca pela autenticidade pessoal, ela alerta contra o cumprimento de padrões impostos e incentiva a introspecção ao invés disso: "I look inside, I look inside, I look Inside, Nothing!".

“The Power’s Out” e “Violent Times” são músicas que diferem de todo o álbum — mas ainda assim soam interessantes, enquanto uma descreve um cenário caótico, de pânico e confusão diante de uma crise; a outra explora a ideia de tempos turbulentos e as consequências emocionais e pessoais, em que o sentimento de desorientação e desespero é recebido com um raio de esperança. "So Many Planets" continua esta entrega mencionada; aqui há uma busca obstinada por pertencimento, embora permeada por um sentimento de deslocamento e desconexão — a melodia é turbulenta e caótica, e a paz só se encontra na voz de Clark, que parece estar totalmente desconexa da realidade e do que as letras querem dizer.

O álbum também possui uma homenagem à SOPHIE, produtora que faleceu em 2021 após um acidente ao subir no telhado para ver a lua: “My sophie climbed the roof to a get better view of the moon” — aqui, dá a entender que ambas eram amigas, mas St. Vincent afirma em entrevista à Rolling Stones UK que elas não se conheciam e que a admirava de longe. Por fim, “All Born Screaming”, que dura longos 6 minutos, vem a ser um acalanto e um alívio diante de um álbum inquietante, que a partir do sofrimento se encontrou com a cura dando início a algo maior. De todas as versões e alter-egos construídos ao longo de sua carreira, aqui vemos Clark sendo ela mesma e principalmente na sua melhor versão.

Selo: Total Pleasure Records, Virgin
Formato: LP
Gênero: Rock / Art Rock, Rock Alternativo
Brinatti

Graduando em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia e Sociologia, 27 anos. É editor e repórter do Aquele Tuim, em que faz parte das curadorias de MPB, Pós-MPB, Música Brasileira e Pop.

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