Crítica | Jolifanto



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Em Jolifanto, a arte não precisa e nem deve ter uma estrutura concreta ou até mesmo fazer sentido — é na recusa da lógica que nasce um dos melhores trabalhos experimentais do ano.

O absurdamente estranho Jolifanto, novo disco da banda eletrônica ZA! com o cantor de flamenco Perrate, nos leva às raízes do movimento dadaísta e sua ideia de concepção criativa que nasceu no seio do sentimento antiguerra e antiburguês, que o fez ser a vanguarda artística europeia do começo do século XX.

Primeiro, é importante relembrar que o dadaísmo foi um movimento artístico que recusava a lógica, a razão e a racionalidade, uma espécie de crítica mesmo as estruturas fixas e do que se era entendido como arte na época em questão; é o fazer arte sem que propriamente aquilo seja sendo produzido, no campo sonoro, visual ou escrito, ou que signifique algo — podemos chamar como antiarte, termo cunhado por Marcel Duchamp, um dos precursores do movimento dadaísta.

Jolifanto, título que o disco carrega, é na verdade uma referência à palavra que inicia o poema dadaísta “Karawane”, lançado em 1916 por Hugo Ball e que foi oralmente performado no clube Cabaret Voltaire. Dentro do disco, Perrate performa o poema inteiro na música “Jolifanto”. Ademais, o poema serve de luz que direciona a inspiração por trás dessa parceria inusitada entre Perrate, que empresta seus vocais graves para dar vida aos ângulos dadaístas de ZA!, que concebe este ótimo projeto fazendo colagens sonoras que desafiam mesmo o que se é compreendido em termos de música como estrutura — não existe uma ideia concreta, fixa, os elementos são constantemente transmutados.

ZA! projeta e desenha produções rebuscadas e usos exímios de polirritmias nas faixas, e também na concepção visual da capa, que amarra de maneira excelente o que seu conteúdo por dentro é, o encaixe de diferentes elementos/instrumentações que estão se misturando entre si, em uma experiência que joga o ouvinte ao enésimo no estado de catatonia — surpreendente, pegando de jeito e um choque cacofônico, eu diria… Fica a recomendação de uma escuta atenta de fones de ouvidos para reparar nos mínimos detalhes de produção, isso possibilita que a viagem seja ainda mais suprarreal.

Selo: Lovemonk Discos Buenos
Formato: LP
Gênero: Experimental / Música Latina/Hispanófona
Joe Luna

Futuro graduando de Economia Ecológica (UFC), 22 anos. Educador ambiental, e redator no Aquele Tuim, onde faço parte das curadorias de MPB, Pós-MPB e Música Brasileira e Música Latina/Hispanófona. Além disso, trago por muitas vezes em minha escrita uma fusão com meu lado ambientalista.

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