Crítica | Big Sigh



★★★★

Após ser altamente pressionada por si mesma, Marika obteve o sensacional Big Sigh, o fruto mais apetitoso que já extraiu de seu esforço até então.

Quando estão passando por um período de escassez de água, as plantas entram num estado de “estresse hídrico”. Quando estão nesse processo, diminuem o número e a qualidade de suas produções. No entanto, este não foi o caso de Marika. Vendo a partir de uma analogia, a cantora seria uma árvore e a seca seria o árduo procedimento tomado para a composição de seu fruto mais saboroso, Big Sigh. A pressão e perturbação acelerou a confecção do disco, por mais que se pudesse imaginar que fizesse o exato oposto.

Na tentativa de acender uma faísca de inspiração que gerasse o fogo necessário para alimentar sua mente criativa, Marika se sujeitou a investigação de suas memórias mais dolorosas, como o fim de seu relacionamento conturbado e sua luta contra a ansiedade. E essa sua investida gerou uma obra sensível, com uma produção receptiva a emoções labirínticas, mas com a escrita firme o suficiente para conseguir traçar o caminho correto até o coração de seu ouvinte. Em “No Caffeine”, a cantora escreve habilmente sobre uma lista inoperante de afazeres para cumprir na tentativa de sanar sua perturbação, juntamente do alvoroço impetuoso de trompetes, violinos, piano e bateria, que simulam sua inquietação.

Durante as gravações de Big Sigh, Marika não conduziu o caminho que seus sentimentos iriam seguir, ao invés disso, ela optou por criar a partir da espontaneidade. Na criação da faixa-título, estava apenas tocando sua guitarra descontraidamente quando um riff em específico se distendeu de seu instrumento, chamando sua atenção, e então, subitamente, estruturou a melodia da canção e adicionou a percussão calibrada da bateria e do baixo. Em “The Ground”, se absteve de compor mais de duas linhas, deixando a sua produção nebulosa e intangível tomar conta do ambiente e sua voz servir apenas como mais uma peça do mecanismo. E essa tomada de decisão deixou o álbum muito autêntico e dinâmico, se diferenciando de outros lançamentos no meio indie rock que se estagnam nas mesmas ideias óbvias e supérfluas de sempre.

Big Sigh, pelas palavras de Marika, foi o maior desafio que teve de enfrentar em toda a sua carreira, mas gostaria de adicionar que sua vitória foi o seu maior triunfo enquanto musicista. Agora, depois de ter vislumbrado o desbravamento de novas formas de se fazer música, tudo indica que daqui em diante só irá melhorar artisticamente. E eu, enquanto admirador de sua arte, não poderia estar mais animado com isso.

Selo: Chrysalis
Formato: LP
Gênero: Indie Rock / Singer-Songwriter, Indie Folk

Bruno do Nascimento

Sou Bruno, tenho 18 anos, sou autista, paraibano, escritor e estou terminando o Ensino Médio. Amo escrever e comentar sobre música onde passo, inclusive no Aquele Tuim, em que faço parte da curadoria de Música Brasileira e Pop.

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