Crítica | Cold Visions


★★★★

Em Cold Visions, Bladee mostra versatilidade e inovação mesmo em uma discografia já eclética.

Depois do lançamento de Whole Lotta Red, no final de 2020, é difícil imaginar uma tendência dentro do hip hop maior que o rage atualmente. É um estilo cheio de energia, potencial de experimentação, com produtores excelentes já conhecidos dentro e fora da cena e muitos álbuns diferentes. O novo lançamento de Bladee explora por entre essa estética uma nova forma de sonoridade, sem deixar completamente o estilo do cloud rap e emo rap da drain gang, que o popularizou.

O interessante aqui é especialmente a grande variedade de sons do disco, apesar de ser longo e com uma grande quantidade de músicas, nunca é cansativo. Isso porque Bladee sabe usar a sua versatilidade para construção de flows e letras junto com uma equipe de produtores geniais dentro do rage. O grandes destaques de beats ficam para o F1LTHY, que é nada menos que genial na criação de melodias simples, mas experimentais, em seus beats, os sintetizadores em músicas como “DON’T WANNA HANG OUT” e “I DON’T LIKE PEOPLE” são hipnóticos.

Além disso, um dos principais aspectos do rage é a energia. Enquanto no clássico Whole Lotta Red a energia era de um show de punk, êxtase do início ao fim, em Cold Visions, Bladee não larga mão de suas melodias vocais mais dramáticas. Ainda assim, é impossível dizer que não há um grande fluxo de energia nesse disco, mesmo em momentos mais melódicos, típicos do emo rap, a música seguinte, ou um beat change na música, vai fazer questão de trazer essa onda de agitação.

Falar em energia é falar em drain gang, por mais contraditório que isso pareça esteticamente falando, é só notar os feats, eles sempre trabalham entre si, e a energia de cada participação é relativa ao clima da gravação. Claro, toda arte é resultado do seu modo de produção, e o modo de produção deles é verdadeiro, não precisa ser um fanático para perceber o quanto eles gostam de trabalhar uns com os outros, muito menos para entender as piadas que eles fazem ao longo das letras e o quanto o próprio Bladee ainda gosta de fazer música e variar dentro de sua própria estética.

Por esses motivos, Cold Visions é um dos grandes lançamentos do ano e Bladee continua um dos mais relevantes artistas da atualidade. Cada um de seus novos lançamentos, os bons e os ruins, os planejados e não planejados, mostra que ainda há muito o que fazer dentro do hip hop — e se não são os grandes artistas que decidem sempre ir mais longe, quem são eles?

Selo: Trash Island
Formato: LP
Gênero: Hip Hop / Rage, Cloud Rap, Emo Rap
Tiago Araujo

Graduando em História. Gosto de música, cinema, filosofia e tudo que está no meio. Sou editor da Aquele Tuim e faço parte das curadorias Experimental, Eletrônica, Funk e Jazz.

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