Crítica | Light Verse


★★★½

Após uma ressaca melancólica, a esperança é a única coisa que podemos agarrar. Em Light Verse, Iron & Wine buscam agarrá-la entre lindas melodias.

Por vezes, a melancolia parece ser uma fonte inesgotável de letras para artistas do indie folk. Os diferentes desânimos e decepções da vida ecoam em suas melodias, composições e na roupagem estética. Furando esta expectativa, Iron & Wine tenta achar o lado bom da vida entre tantas tristezas.

Light Verse é uma dança entre dois lados opostos que buscam fazer sentido dentro de sua história. As melodias soam, na maior parte das vezes, esperançosas, enquanto suas letras brigam por espaço e caem em indecisão. O uso de binarismos contrastantes é bastante evidente, e me parece que a intenção de Sam Beam é construir o álbum liricamente desta forma.

Estas combinações de melancolia/esperança, melancolia/melancolia e esperança/esperança criam um ambiente único dentro da narrativa, e que cabe ao ouvinte decidir qual destes sentimentos o álbum de fato pretende transmitir. Vejo, entretanto, que o disco atinge seu ápice quando a terceira combinação se encontra entre a letra e o som; é de uma beleza surpreendente.

Entre as faixas, destaco “You Never Know”, “All in Good Time”, parceria com Fiona Apple, e “Angels Go Home”. Peço ao leitor permissão para me debruçar em uma faixa específica, “Tears that Don’t Matter”. Toda a ideia que venho discutindo sobre o álbum pode ser encontrada perfeitamente na música; o uso constante da oposição “Lost and Found” leva à ambiguidade da conclusão que Sam Beam pretende. Dentro de seus 7 minutos, a peça evolui bastante para tentar encontrar um sentido nela mesma.

Embora haja uma margem considerável para interpretação subjetiva, Sam Beam parece já ter tomado sua própria decisão entre as ironias de suas letras e o tom pessimista que o álbum adquire para ele. Nesta perspectiva, imagino que o álbum perca o brilho e soe mais do mesmo no indie folk. Por isso, é muito importante estabelecer até onde nos afetamos pela intenção do autor na obra e quando se apropriar – subjetivamente – é a melhor alternativa na relação que estabelecemos com a arte.

Então, existe um lado bom na vida ou estamos destinados a mofar eternamente numa tristeza sem fim? Em Light Verse, cabe ao ouvinte decidir se a tristeza é o veredito final ou se vale a pena agarrar a esperança a qualquer custo. Assim como a lágrima é ambígua por si só, Iron & Wine criam um espelho para refletirmos sobre nossos próprios sentimentos.

Selo: Sub Pop Records
Formato: LP
Gênero: Folk / Indie Folk, Folk Contemporâneo
joão lucas

Potiguar, mulçumano e graduando em Ciências Sociais. Escrevo sobre o que me cativa e o que me apetece. Redator e curador de Folk/Country, Música do Leste e Sudeste Asiático e Pop/R&B no Aquele Tuim.

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