Crítica | This Ain't The Way You Go Out



★★★★

Em This Ain't The Way You Go Out, Lucy Rose delineia a luz em meio às rachaduras da vida.

Após dar à luz seu primeiro filho, Lucy Rose foi diagnosticada com um tipo raro de osteoporose pós-parto. Essa experiência foi a principal catalisadora de seu novo álbum de estúdio, lançado esse ano pela Communion. Aqueles familiares com o trabalho da cantora facilmente esperariam nesse momento um trabalho envolto pelas dores e o peso dos eventos que se passaram nesses quatro anos desde seu último registro, o emocionalmente carregado No Words Left, de 2019.

Não poderíamos estar mais enganados, pois o que temos aqui é um disco vívido, com uma sonoridade permeada por elementos de jazz e R&B, e que se volta para o futuro; para o que ainda pode ser. Em This Ain't The Way You Go Out, Lucy Rose delineia a luz em meio às rachaduras da vida. A cantora nos apresenta a uma paisagem de reinvenção, onde ela parece se divertir com as possibilidades presentes em meio a música que cria.

Ela soa refrescante e consciente das coisas que a atormentam, mas nunca é intimidada por elas. Mesmo em seus momentos sombrios, o título presente na canção homônima nos relembra que “This Ain’t The Way You Go Out” (em tradução livre: “Não é assim que você vai sair dessa”. Um lembrete muito bem vindo de que se afundar na escuridão não oferece possibilidade de escape, mas acaba por nos aprisionar ainda mais. O álbum é um testamento à verdade mais certeira sobre nossas dificuldades: somente conseguimos sair delas atravessando-as plenamente.

O que move as canções presentes no disco não é um otimismo vazio, mas o reconhecimento da própria dor enquanto formadora de nossa história. Em “Dusty Frames”, ela canta: “Because the world was never what I dreamed it was / Not a world that I can live / So change it all”, letra que ao final do álbum recebe um contraponto em “The Racket”: “Life ain't always what you were handed / Don't be so easily offended / There's some things I learnt to live with / ‘Cause some things can't be changed”.

Aí está: a percepção de que algumas coisas não podem ser mudadas, o que não significa que não possamos fazer algo a partir delas. Ainda em alusão a última faixa, “The Racket”: em uma partida de tênis, é preciso muita força para levantar e pegar a raquete após uma queda feia. Lucy Rose realizou essa façanha em seu álbum.

Selo: Communion
Formato: LP
Gênero: Folk / Folk jazz, Sophisti-pop
Mateus Carneiro

Graduando em Letras pela UTFPR. Nutro um interesse pela exploração de diversas formas de expressão artística, incluindo a música, o cinema e outras manifestações culturais. Faço parte das curadorias de folk, eletrônica e experimental no Aquele Tuim.

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