Ludom | Ludom


★★★★

Muita coisa muda em sete anos de vida, seja na cor do cabelo ou nas verdades que acreditávamos serem absolutas. Porém, ocasionalmente, há desvios nos caminhos da vida que precisamos fazer em prol da reinvenção do nosso próprio eu, seja na estética ou no emocional. Para a cantora Ludom, o seu renascimento não veio apenas na abreviação de seu nome artístico – anteriormente conhecida como Luciane Dom –, mas através de um novo trabalho auto-intitulado Ludom, sucessor do Liberte Esse Banzo (2018), lançado na última quarta-feira (5). O disco reapresenta a artista ao público com uma nova roupagem mais pop, mas sem perder a sua autenticidade como letrista.

No álbum, a compositora fluminense conta sobre os momentos que viveu entre as suas viagens internacionais em países na América do Norte e do Sul; o que muitos podem pressupor que Ludom contaria sobre as grandiosas futilidades que um passeio em terras estrangeiras proporciona, felizmente, eles estão enganados; a cantora vai para outros sentidos: a vulnerabilidade e as causas que atingem o âmago de questões sociais. Isso é destacado no abre-alas do projeto, “Toda Intensa”, que reflete sobre o medo de Dom em amar e as inseguranças sobre a incerteza do amor (É que me assusto se digo: Eu te amo/ É que o futuro não é garantido / O que é garantido?). Já em “A Rua”, a desigualdade social e a fome são pautas centrais dentro dos questionamentos apresentados pela historiadora (“Sem comida, água, leite quente, como sonhar?”).

A personalidade questionadora e por vezes disruptiva da artista não é de hoje, desde seu primeiro disco, Luciane já apontava as injustiças sociais que o país enfrenta diariamente. Antes, em uma sonoridade jazz pop – até mais séria – com referências a Rosa Neon e Liniker e os Caramelows. Contudo, neste LP, apesar de manter a postura, Ludom muda drasticamente a forma de apresentar as abordagens da sociedade para uma produção com foco em estilos como o afrobeats, muito mais tropical (batuques e grooves potentes) e descontraída; semelhante ao recente lançamento Topo da Minha Cabeça, de Tássia Reis.

Além das narrativas citadas, Ludom também traz uma visão mais intrínseca, que sai da vulnerabilidade e parte para questionamentos existenciais ao abordar relacionamentos amorosos que já passaram. Por exemplo, na faixa “Calôbaixô”, o R&B melódico melado com mel de pimenta se encaixa com as letras “românticas” ao decorrer da canção, mas, na verdade, a cantora utiliza a ardência do carnalidade como uma espécie de ansiolítico – remédio para aliviar sintomas de ansiedade, pânico e insônia – para escapar do estresse cotidiano. Já “Não Sabe de Mim”, a artista tenta descobrir quem de fato ela é após um breve romance com uma pessoa. Faixa que reúne as principais características temáticas do projeto e que, ao propor tal exposição, retira os limites que geralmente são impostos em materiais que se aproximam desse tipo de construção lírica e musical. É como se, em momentos como esse, a composição atingisse um objetivo primário que assume contornos de pura latência emocional e descritiva – características que ela domina como ninguém neste álbum.

Desta vez, o novo disco de Ludom coloca a artista em uma posição mais aberta para o mercado da música nacional. Através de elementos pop (canções animadas, dançantes e viciantes), a cantora fica lado a lado à Liniker e Melly como propulsoras de originalidade e autenticidade ao seu trabalho, seja na forma escrever as vivências experienciadas no dia a dia (CAJU) ou na produção que mistura regionalismo e elementos afro-diaspóricos (Amaríssima). Não há tantos resquícios da “antiga” Luciane Dom no álbum, mas sua força de vontade e honestidade consigo ainda continuam as mesmas.

Selo: Toca Discos
Formato: LP
Gênero: Música Brasileira / Pop
Lu Melo

Estudante de Jornalismo, 20 anos. Já fez parte do g1 Alagoas e Revista Alagoana. Atualmente escreve para o Aquele Tuim na curadoria de música brasileira.

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