
★★★
Há uma razão para sempre ouvirmos música enquanto viajamos por aí, seja uma distância curta, média ou longa. É essencial encarar a paisagem, criar conexão com o movimento e recordar o caminho com uma boa trilha sonora. A música nos desloca enquanto nos deslocamos, talvez nenhuma lei da física possa explicar isso, assim como também não podem explicar o inverso: a forma como nos deslocamos enquanto nos mantemos estáticos, imersos num único lugar. Dessa segunda força surge o novo álbum de OHYUNG, projeto de Lia Ouyang Rusli.
IOWA trata de sua estadia em Iowa City entre 2023 e 2024, e encara o momento a partir de inúmeras frentes: a da localidade, a da vida que levou ali, a de recursos, a de pessoas, a dela vivendo por ela mesma. É possível chamar um lugar, cujo tempo de moradia fora curto, de casa? Essa sensação de “passagem” é friamente construída aqui, como se Lia buscasse fazer desta mesma passagem a sua recordação pessoal, de um período que viveu e que jamais há de esquecer. Da paisagem local, do clima e do quão foi tocada, como se ali fosse uma cena curta do filme extenso que é a sua vida.
Essa sensação cinematográfica não é atoa: Lia tem experiência com a composição de trilhas sonoras, e recentemente foi responsável pelas trilhas dos filmes Happyend, de Neo Sora, e Sorry, Baby, de Eva Victor, que venceu o prêmio Sundance. Não só pela sua familiaridade com o cinema, mas também com a música ambiente que IOWA cresce como um pano de fundo perfeito para situações e manifestações que correspondem ao tempo e a própria existência de Lia Ouyang Rusli de sua abordagem trans experimental. Em “the black angel”, um dos destaques do álbum, a atmosfera se inclina para composições um tanto sombrias, com fragmentos vocais tomados por um som quase inteligível, porém angelical, que parecem fluir à medida que são guiados por passos largos e pesados.
“christofascism”, talvez a faixa que melhor caracteriza o aspecto relativo à vivência de Lia e às suas composições como antítese do conforto, do quase turismo, conta com um coro revestido por explosões sintéticas que geram uma amplitude de espaço entre o tema da música. “A ideologia cristã armada que demoniza pessoas trans enquanto o ICE faz rapel para prédios de apartamentos; será que é isso mesmo que eles pedem?”, podemos ler na descrição acertada da música. Talvez seja neste ponto que possamos compreender o que IOWA, por fim, simbolizou para ela.
Selo: Independente
Formato: LP
Gênero: Experimental / Música Ambiente