Crítica | McArthur


★★

Quando “GRAYT” começa, os vocais de FRANKIE parecem pulverizar o ar, ao mesmo tempo em que a produção empoeirada de Kelman Duran cria algumas bases melódicas duras – fragmentos vocais que parecem ecoar a quilômetros de distância, uma batida repetitiva de fundo –, que divide espaço com a sutileza vocal e uma díade de cordas, que aprofundam o efeito ambiental da faixa. McArthur, parceria entre os dois, levou tempo para se firmar.

Não necessariamente devido a logística – isso também –, mas pela própria conceituação de ideias e visões, que partem de uma inconformidade com o tempo, sem abstrações, uma vez que o processo de composição compartilhada revelou uma unidade entre o que ambos pretendem aqui, e sem barreiras geográficas. Essa consideração envolve a temática do álbum pelo simples motivo de instigar a recusa, “uma recusa teimosa, senão militante, em chegar à completude, e uma insistência em encontrar potencialidade nos limiares”, é descrito.

Claro que, ao ouvir McArthur, o que se efetiva é o valor estético de profundidade das composições, não a instrumental e lírica, mas a que realoca características firmes dos dois artistas. Em “No Gods”, por exemplo, as cordas retornam, com mais opulência do violino, que em dado momento divide espaço com caixas e baterias, numa espécie de cacofonia improvisada e que gera um efeito que se estende para a sequência, “Icecream”, um interlúdio dub, com vozes abafadas, e uma nota sustentando um tipo de drone que não tem espaço para se desenvolver, e acaba antes de atingir seu ápice climático, um corte brusco, que causa uma sensação de frieza absurda.

Em outros momentos, essa frieza persiste, ainda que de forma mais “confortável”, é o caso da música “BWV 639”. Nessa peça, o piano e o vocal afável de FRANKIE parecem não ser suficientes para nos afastar do que o disco, como um todo, busca expor, como se estivéssemos diante de algo tão solene que se faz necessário regredir a escuta para compreender o que, de certo modo, há em abundância aqui: a beleza do som perturbado, do som tocado e orquestrado com profundidade – às vezes repetitivo – e a beleza dos vocais, que dão a impressão de não serem apenas complementares, mas indissociáveis.

Selo: Kuboraum Editions
Formato: LP
Gênero: Experimental

Matheus José

Graduando em Letras, 24 anos. É editor sênior do Aquele Tuim, em que integra as curadorias de Funk, Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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