Crítica | sentence structure in the country


★★

Esse é o tipo de álbum que nasce pronto para desconcertar o ouvinte tradicional de música pop. É bobo dizer isso, pois há diversos exemplos de discos que podem causar o mesmo efeito, vindos de artistas diferentes. A diferença é que more eaze, para os ouvintes de música pop que também se arriscam por estilos e tendências de vanguarda, soa brutalmente pop, e isso o torna tão interessante quanto curioso.

Assim como outros discos da compositora, orquestradora e multi-instrumentista do Brooklyn, sentence structure in the country também é mergulhado em auto-tune e texturas eletrônicas que instigam uma linguagem acessível, mas, ao mesmo tempo, estranha para quem vem de fora. No ápice dessa estranheza, “crunch the numbers”, ela usa baterias livres e pequenas interferências metálicas de eletroacústica que provocam uma superfície quebradiça no design afiado da música, intensificando-se aos poucos enquanto seus vocais, ao fundo, parecem se dobrar ao meio em busca de alguma direção que não seja o primeiro plano instrumental.

É um dos melhores momentos do álbum, sobretudo por dar as cartas do que more busca fazer aqui. Parece simples demais, visto que a sequência, “biters”, e seus sete minutos de duração, parece repetir o mesmo caminho, com a diferença de apostar mais na desconstrução da eletroacústica e se enviesar por sinais anafiláticos de alguma eletrônica de subsolo. Essa facilidade, todavia, não pode ser replicada, muito menos descrita. more, assim como nomes que se aproximam do seu estado criativo, tipo claire rousay, com quem colaborou ano passado no excelente no floor, habita uma forma de compor, tecer estruturas e abordar o pop em completo desmonte. Por isso, soa livre para ir além da experimentação postada unicamente no som. Na faixa citada, há instantes em que acordes surgem empurrados por seus vocais mais crus, que remetem a Joanne Robertson em Blurrr.

Por mais sintético que seja, e é muito profundo, destaca seu próprio estilo como quem se desdobra ao meio para impor alguma noção menos superficial à voz. É nesse momento que retorno à ideia de sentence structure in the country ser desconcertante para o ouvinte ocasional, vez que eu não imagino como deve ficar a cara de, sei lá, um fã da Taylor Swift que deu play 500 vezes no último álbum dela ao ouvir isso. É nesse ponto, na tensão entre diferentes realidades e ocasionalidades da música pop, que more eaze cresce e salta à frente de todos.

Selo: Thrill Jockey
Formato: LP
Gênero: Experimental / Eletrônica, Eletroacústica

Matheus José

Graduando em Letras, 24 anos. É editor sênior do Aquele Tuim, em que integra as curadorias de Funk, Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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