Crítica | Trying Times


★★

É difícil olhar para o pop e não ver James Blake. Para além de suas colaborações, ele exerceu influência direta na construção de algumas marcas que vieram a ocupar sobretudo o R&B alternativo. Seu som cru, esquelético e, por vezes, frio pode ser percebido em uma ruma de artistas que vão de Frank Ocean a Sampha. Blake começou não utilizando sua voz e, quando finalmente o fez, foi como se revelasse ao mundo uma parte distinta de seu som. Desde então, sua voz tem sido o elemento central de sua música.

O problema, porém, especialmente em Trying Times, é que Blake parece já não ter mais o que fazer com esse elemento primordial. O disco ajusta bem suas investidas por terrenos mais atmosféricos dos estilos que abraça aqui, mas com o único e exclusivo critério de funcionar como um desmembramento de seu impacto na música pop. No melhor momento do álbum, “Rest Of Your Life”, o ritmo parece se desprender de tudo o que ele vinha apresentando, rompendo com sua lentidão característica.

É o único sinal, em termos de boas ideias, do que ele consegue fazer sem soar preso ao próprio método. A faixa nos transporta para uma pista cuja iluminação são as estrelas e o chão, as galáxias, brilhantes, reluzentes. Apesar da energia em picos altíssimos, tudo se encerra ali, e logo retornamos à indiferença que se tornou sua busca por fixar algo que possamos compreender como identidade. A pergunta, porém, se constrói a partir disso: expandir ou manter uma identidade sonora é bom quando? Em que situação permanecer estático pode lhe render um interesse tão profundo quanto arriscar?

Trying Times não responde a essa dúvida, sequer parece se importar com ela. Por isso, trata-se de um álbum que não é apenas “mais do mesmo”, pois não há “mais” nada, e o “mesmo” se torna tão centrado que vira um componente à parte daquilo que o disco, primordialmente, tende a oferecer. Por fim, não se trata de uma obrigação, ou de um dever moral, buscar evoluir, expandir sua visão, ainda assim, mesmo que o resultado seja desanimador, existirá a recompensa de não restar medo. Não há imposição pior do que a falta de perspectiva e o medo. Trying Times é um poço de medo. Dá vontade de empurrar James Blake e gritar: “acorda, meu parceiro. Coragem!”.

Selo: Good Boy
Formato: LP
Gênero: Pop / R&B

Matheus José

Graduando em Letras, 24 anos. É editor sênior do Aquele Tuim, em que integra as curadorias de Funk, Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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