Crítica | MR.


★★

Um dos maiores problemas que rondam a cena de trap brasileira é a falta de projetos constantes, concisos e que realmente tenham alguma valia no que apresentam, sejam em suas batidas, conceitos ou letras. Como argumento para essa falta de consistência e projetos consideravelmente longos – a grande maioria, medíocres para horripilantes –, utilizam a fácil desculpa de que aquilo é simplesmente estética, que há influências de diversos artistas americanos e que o público geral não entenderia, que eles de alguma forma são pioneiros no que fazem. O trap é americano e, quanto mais o tempo avança, o espaço em que a cena brasileira tenta se inserir se mostra mais um modo formulaico do que é feito lá fora. Pouco se cria, pouco se reformula e ainda menos se torna interessante.

Yunk Vino é um dos artistas mais complexos dessa cena, pois, mesmo tendo um estilo característico e distinto, ele também insiste em se manter em leve contato com os aspectos negativos citados anteriormente. É como se o artista estivesse com o corpo todo fora da areia movediça, mas se forçasse a colocar um dos seus pés ali por pura sensação de pertencimento. E, se alguém que tinha o potencial de entregar um projeto sólido e com reais potências de demonstrar um avanço significativo na cena, o seu nome certamente seria um dos mais fortes a isso.

Pois bem, MR. é uma decepção. O álbum de estreia do trapper – sim, trapper – brasileiro é uma decepção para aqueles que esperavam algo grandioso ou até esperançoso para a cena, algo que se destoasse e colocasse o nome do artista em um patamar mais sublime do que aquele que já é colocado. Flores precisam ser ditas, pois este é o seu projeto mais conciso e correto da carreira. Uma mixagem digna de um álbum de estúdio, mudanças de flows e tudo aquilo que faria um entusiasta da cena brasileira se arrepiar por inteiro – até porque, pouco se precisa para impressionar esses entusiastas –, mas nem precisamos olhar tanto para denotar os principais problemas que este projeto apresenta.

É até cômico olhar e perceber que todas as participações especiais são ou medíocres ou esquecíveis até certo ponto. Duquesa, uma das frontes no que se dignifica a reformulação do gênero por meio da dominação feminina, seja de popularidade ou até qualidade, cai naquilo que ela própria crítica: a falta de substância. Linhas que podem ser tiradas de qualquer mixtape de um artista masculino (“o lugar que vocês cochila eu nem pisco/onde eu piso cê nem pisa/nóis não gosta de andar liso/se for pra trampar me chama/e buxixo, eu nem existo”). São versos que soam contraditórios por si próprios e causam um leve estranhamento e receio para aquele que acompanha ela há longa data.

Veigh é o Veigh, a amálgama do que o trap mainstream acredita que é: o mesmo flow, a mesma ostentação, as mesmas palavras. Um verso que simula qualquer parte desinteressante do seu último álbum de estúdio, mas que consegue ser incrivelmente piorado pela simulação de urgência estipulada pelo BPM acelerado de Tuti, seu colaborador de longa data.

DESSIIK simula a mesma coisa que Veigh anuncia na faixa anterior, mas é claro, com reformulações, pois ele se posiciona como ‘underground’. Uma falsa afirmação de periculosidade, swag e mais swag. Nada empolga, nada traz êxtase; é apenas um ciclo vicioso de repetições que funcionam para aqueles que entendem que repetição é afirmação consciente. Vino parece estar em modo automático na maioria das faixas, o que se contradiz com afirmações dadas por executivos por trás do projeto. Quando utilizam a extensão de tempo atrelada à construção de um conceito, que aqui é apenas, novamente, pela estética, mas nada agrega à consistência do álbum – é um claro sinal de que eles não fazem a menor ideia de como promover tal projeto. Mas, Vino no automático ainda é algo minimamente interessante e divertido. A faixa introdutória, “Base", empolga pela crescente quase que maquiavélica com bumbo que reverbera com força no ouvinte e uma leve linha de violino por trás. Quando os instrumentos de simulação ao vivo compõem as batidas, o álbum ganha leves pontos de interesse e atenção, mas é uma leve pena que esses momentos sejam pontuais, como em “MR" e “Desde Mais Novo".

Esperar algo criativamente excelente e inusitado de um artista de trap hoje é talvez o maior erro de refém que possamos ter. Não há muito para ser trabalhado, e MR. é o resultado de quando esperamos algo de alguém que sabemos que tem a capacidade. É escutável? Claro que sim. É divertido? Tem os seus momentos. É interessante? Aí já conversa para outro dia. Não há mais que Vino possa fazer que me impressione; isso é o seu teto.

Selo: Boogie Nights / Labbel Records.
Formato: LP
Gênero: Hip Hop / Trap
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