Crítica | FODA-SE


★★★

É revigorante acompanhar certas tendências que exploram a potencialidade de um determinado gênero em se desdobrar entre tantos outros caminhos, sonoridades, estilos e releituras, sem perder a própria essência, como o funk tem demonstrado nos últimos anos. Dentro dessa lógica, DJ Alexia realiza um exercício da própria linguagem no espaço em que compõe o funk mandelão, seguindo os passos certeiros de Caio Prince no ano passado com seu grandioso álbum de remixes do seu hit “Botano”. Esse formato de lançamento tem se tornado uma nova onda para os produtores que também tocam e sabem como inovar nas pistas sem precisar se desapegar das suas músicas-assinatura, passos seguidos também pelo DJ Adame com seu EP de remixes da grandiosa faixa “Conflito”.

O ato de lançar não só um EP, como um álbum completo de remixes de apenas uma música só da sua carreira, acaba sendo um tanto pretensioso no sentido de confiar no potencial daquela obra para receber diversas releituras, o que no caso de Alexia, se revelou de forma muito natural como a faixa “FODA-SE” tem todo o potencial necessário para novas re-elaborações. A artista que tem se consolidado como uma das grandes mentes produtoras do funk submundo vislumbrou de forma muito acertada novas maneiras de explorar a própria linguagem em uma música que era ponto alto de seus sets, trilhando um possível caminho para estar presente em vários outros sets dos mais diversos DJs do gênero e subgêneros, sendo uma estratégia inteligente de demonstrar seu potencial criativo e identidade artística.

Apesar de bem arranjada, a empreitada sofre com uma quebra de ritmo pelo volume de faixas que compõem a lista, o que faz com que acabe soando meio repetitivo, naturalmente, lá pela sétima faixa, logo após a brilhante “DISSOLUÇÃO DO ROCK”, com seu parceiro de sucesso, HALC DJ, é minha dupla favorita dos últimos tempos no funk, pois a forma como ambos combinam suas identidade, texturas e beats é tão envolvente e ao mesmo tempo heterogênea, um verdadeiro mármore raro do mandelão.

E aqui passo um grande pano para a elaboração da tracklist, pois já que a ideia é explorar em sua plenitude o potencial de releituras da mesma música, é preciso unir todas as versões possíveis com os produtores mais quentes do momento, mesmo que isso signifique sacrificar um pouco da paciência do ouvinte. Porém, para quem não perde a fé e continua disposto a ouvir o que essa experiência muito divertida tem a proporcionar, encontra no final um verdadeiro pote de ouro. No final do álbum temos os verdadeiros highlights de toda a obra, e reitero o que disse na crítica de Apoteótica quando digo que Alexia é uma verdadeira mestre do barulho, incorporada em “DISSOLUÇÃO DO BARULHO” ao lado de DJ Fanqui. A faixa se equilibra entre momentos estourados e ruidosos e momentos mais distantes dos vocais icônicos de MC Delux, dando espaço a um house muito divertido que serve como ponte entre o tuim e batidas ásperas estranhamente confortáveis.

Uma excelente escolha de transição para essa faixa foi a incrível “DISSOLUÇÃO DOS PEPPA”, produzido em parceria com o DJ RD DA DZ7 – que vem apresentando trabalhos incríveis nos últimos meses – e os vocais sensuais e marrentos da Bia Soul, que embalam os beats mais finos numa melodia mais calma e comedida, diferente da música antecessora barulhenta, criando um contraste essencial. Pouco mais tarde, em “DISSOLUÇÃO DO FUNK HALL”, somos surpreendidos com os vocais da Vita Pereira, que trazem uma certa familiaridade para quem acompanha a cena do funk alternativo nos últimos anos.

O raga presente nessa faixa, combinados de sirenes particulares de Alexia e um atabaque marcante, demonstra como mesmo no final de toda a experiência ainda podemos ser surpreendidos com todas as camadas que o funk da artista pode alcançar, assim como na música de encerramento “DISSOLUÇÃO DO HARD”. Aqui temos um bom exemplar de uma das melhores tendências do funk que é se unir ao hard techno e criar momentos verdadeiramente vibrantes, por favor, Alexia, explore mais esse espaço criativo.

Obviamente nem todas as excelentes faixas se concentram no final da experiência, mas é impossível deixar de destacar que mesmo após uma longa jornada, ainda podemos ser surpreendidos, carregando conosco momentos também gloriosos como em “DISSOLUÇÃO DA BRUXARIA”, “DISSOLUÇÃO DA BOLHA” e “DISSOLUÇÃO DO APITO”.

No fim das contas, é uma experiência marcante por si só, que demonstra a potencialidade criativa em torno de uma faixa que faz parte de um momento cativante nos sets da artista, demonstrando que quando falamos de funk, vivemos na verdade em um multiverso musical, alimentado por mentes criativas, talentosas, atentas e brilhantes como a de Alexia, uma produtora que além de tudo isso é também muito visionária.

Selo: nine music
Formato: Remixes
Gênero: Funk

Lucas Granado

Mestre em Letras, nascido em Curitiba nos anos 2000. Me considero um híbrido entre as gerações 'y' e 'z', o que me torna explorador dos clássicos, mas também aberto às novidades do mundo da música. Participo da curadoria de Funk do Aquele Tuim desde 2025.

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